
A questão de maior peso, negativo, trazida por pessoas na condição autista tardia, é o processo contínuo e ininterrupto relacionado às comparações. Vale ressaltar que isso não pertence, exclusivamente, à neurodivergência. A dinâmica social é pautada por uma busca insana e contínua em relação a ação do comparar.
Genericamente, a comparação busca uma verificação para posterior aprovação. Aquilo que penso, os valores que vivo e as atitudes que adoto, são compatíveis como aquilo que o senso comum vivencia e acorda. Caso haja uma autopercepção positiva, o sentimento de pertencimento é acionado e a sensação em fazer parte é internalizada pela pessoa.
Obtendo essa segurança, anseia-se uma nova aquisição: passar a competir dentro dessas semelhanças para se tornar um sujeito melhor. Falo de travar uma competição. Contudo, aqui, opta-se, na maioria das vezes, pela pior forma de competir que pode acontecer dentro do ciclo social, que é competir com o outro. Todos os demais sujeitos desse senso comum passam a ser rivais, abandonam-se o princípio de pares que cooperam entre si. Nega-se a competição saudável, aquela realizada consigo para se tornar uma pessoa melhor e se nutri o princípio e o valor de passar a ser alguém superior ao outro, gerando hegemonia e soberania sobre determinados grupos e processos.
Essa realidade, gradativamente, vai fragmentando identidades pessoais e potencializando os conflitos entre as pessoas e os diferentes sistemas sociais estabelecidos. Em relação as pessoas neurotípicas, há um desejo e uma ambição para vivenciar e alçar esses pressupostos descritos. É notória essa sede para a superação ao outro e as disputas entre grupos e entre participantes de agrupamentos, supostamente, afins. Os conflitos naturais promovidos pelas diferenças passaram a ser secundários, as grandes batalhas passaram a emergir pela ânsia à superioridade.
Já quando nos referimos às pessoas na condição autista, reportamo-nos a um grupo originalmente marginalizado. Não por suas diferenças, mas, sim, pelo julgamento imposto às equivocadas avaliações de incapacidade que essas não igualdades são percebidas. Indivíduos na condição autista almejam mostrar que sim, apresentam habilidades e competências, que podem ser respeitados e acolhidos, entretanto, a repetida negativa dos membros da sociedade gera uma certeza interna de que, de fato, são seres problemáticos e aquém de todos os demais que produzem e não geram “incômodos” para o bom funcionamento social.
Todo esse processo é tomado por equívocos danosos. O princípio humano é o da equidade, da reforma pessoal e da contínua evolução do indivíduo, dentro de suas características e peculiaridades. Condição essa perdida com o passar do tempo. É preciso resgatarmos o nosso valor pessoal e a grandeza de contribuição que cada um tem para oferecer ao grande todo desse fenômeno humo, parafraseando Teilhard de Chardin.

Neuropsicólogo especialista em como o cérebro autista funciona, com foco em estratégias práticas e avaliação. Especialista em Psicopatologia. Pós-graduado em Neurociências pelo Instituto Albert Einstein em São Paulo.
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