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Reflexões sobre a condição autista tardia

Ah! Mas é Diferente!

Vivenciamos um outro padrão no contexto social: o da determinação. As últimas décadas é regida por um impulso em construir uma vida material sólida, confortável e com estabilidade. Essa intenção vai além, há uma prepocupação e inclinação sólida para poder oferecer aos filhos uma realidade melhor e uma vida mais tranquila quando comparada com a experimentada por seus pais. Esse processo estabeleceu um perfil comportamental, regido por foco, disciplina e uma incansável construção de infinitas possibilidades para o intento do bem-estar não sofrer ameaças.

          Para tanto, percebemos, homens e mulheres em ações contínuas de auto desafio. Acordam cedo, vão para seus respectivos trabalhos, dedicam-se com afinco, estudam e passam por formações contínuas, a fim de aprimorarem suas habilidades e, com isso, galgarem, espaços e cargos mais elevados para que a condição de vida sempre melhore. É incrível constarar o quanto se dedicam. São horas a fio mergulhados no trabalho, nas horas extras, na rotina de estudos. Muitos trazem para seus lares tarefas complementares, dominando horas que seriam dedicadas ao lazer e à família, para obterem mais êxito sobre essas tarefas estabelecidas. Testemunho várias pessoas que se dedicam dez, doze até quatorze horas diárias a isso. Como também percebo muitos finais de semana sendo tomados por essa dedicação às atividades laborais e acadêmicas.

          E em um estalar de dedos, horas, dias, semas, meses e anos de vida passam, muitas vezes despercebidos por esses homens e mulheres. Um hiperfoco digno, porém, ao mesmo tempo, questionável.

          A motivação e o empenho é tamanho que essa realidade se expande. Esses tais homens e mulheres delegam seu exemplo para seus filhos e filhas. Não é atoa que nessas mesmas últimas décadas observamos o cmomo caminha a rotina de nossas crianças. Participam da escola, de atividades extra curriculares, aprendem idiomas, praticam esportes, aprendem a dominar sistemas de tecnologia. Acordam cedo e vão para a vida. Retornam tarde para suas casas e ali todos se reúnem em torno de telas, nas horas livres, para saborearem a vida mágica ofercida pelas redes sociais. Eis aqui um outro hiperfoco das famílias nesssa atualidade. Tudo isso justificado pelo paradigma de alcançarem uma profissão digna, com ganhos relevantes para não viverem o sacrifício passado por seus pais. Tudo bem, reconceiturar o significado de digno é essencial e refletir sobre o sacrifício vivido para, supostamente, alcançar isso, também.

          Qual o preço que se paga por esse hiperfocar socialmente aceito?

          Perde-se, significativamente, a qualidade vivencial sobre as escolhas feitas pelas pessoas. A energia e o prazer para viver o papel e a responsabilidade de pai e mãe reduzem. Vive-se o princípio de obrigatoriaedade intesa e contínua. As relações informais dentro de casa vão se esvaindo, as pessoas se tornam a cada dia mais individualista, solitárias e o sentido que as motiovu à formação dessa célula familiar vai se desmanchando. As pessoas angariam, ganham e formam patrimônios, porém, estatisticamente falando, usufruem muito pouco porque precisam manter uma ascensão contínua.

          Em relação às crianças, essas deixam de viver seu processo natural de desenvolvimento. Brincam, porém bem menos. Convivem, mas socializam pouco. Confraternizam e se deivertem bem aquém do esperado para suas faixas etárias. Deixam de crescer através da leitura e das brincadeiras externas, centralizando suas atividades em telas ou enclausurados em salas de aula ou nos sofas das casas. E dentro de um processo de excelência, logo que alcançam uma idade de maior responsabilidade, passam a reproduzir, igualmente, o exemplo de vida oferecido pelos pais. Um espetáculo!

          Debruçam sobre o instante presente toda a energia, vontade e motivação para poderem, em um futuro distante, não determinado e talvez não alcançado, usufruirem de pelnitude e equilíbrio. Isso não seria um hiperfco?! Ahhh!!!! Mas é diferente!!

          Pessoas na condição autista são percebidas com seus hiperfocos. Esse comportamento gera preocupação e muitas vezes é criticado pelas pessoas ao redor. O indivíduo direciona uma atenção concentrada intensa sobre um determinado foco esquecendo de outras questões relevantes do seu dia a dia e da própria vida. Nada diferente daquilo que fazem as pessoas que não participam do espectro. Na condição autista há uma rigidez cognitiva natural e o exercício dessas atividades geram regulação em virtude da hiperestimulação do meio ambiente. Por vezes, não há controle. Já no universo neurotípico, falamos de um hiperfoco direcionado e consolidado por condicionamento. Há uma escolha e, atavés dessa escolha, formam-se a rigidez de percepção, pensamento e atitude. Sim, seu desenvolvimento é diferente, contudo, sua maneira de execução é semelhante.

          Podemos ampliar essa centralização de interesses e ações para outros vários segmentos, como religião, polítiva, valores entre outros. O fato é que o desenvolvimento social se dá através do esgotamento de hiperfocos e do surgimento de outros e assim repetidamente. Logo, falamos de uma característica que não pertence, exclusivamente, à condição autista. É um fenômeno social. Por que fenômeno? Porque se constitui de um movimento genérico, padronizado e que impõe um modos operante comum a maioria dos indivíduos, gerando um hábito, consequentemente, valores sociais e, inevitavelmente, uma alteração evolutiva e biológica no padrão de resposta do Sistema Nervoso Central.

          Agora, dentro disso, qual a razão que provoca tantas críticas e afastamentos das pessoas na condição autista, já que seguem um rito semelhante? Talvez porque pessoas autistas sejam julgadas como improdutivas, não trazendo reotrno para esses grupos sociais e que, a forma como se conduzem, diferentemente, agrida esse tal padrão tão bem encaixado nos processos diários dos grupos e dos diferentes sistemas sociais.

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Autismo em Foco | Vozes que sentem
Reflexões, vivências e descobertas sobre o espectro autista — com ênfase no diagnóstico tardio.
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