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Reflexões sobre a condição autista tardia

E Afinal, de que Vale o Amor?

Responder a essa pergunta, no mínimo, necessitamos resgatar aquilo que preconiza o princípio de toda uma história planetária: a busca por uma religação a Deus, seja esse ocidental, oriental ou de origem africana. O saber ocidental é ditado pelas concepções cristãs, assim como se verifica nos compêndios filosóficos e acadêmicos. As premissas ocidentais, essas são direcionadas pelo budismo e demais concepções espiritualizadas que participam de suas várias culturas. O mesmo acontece em relação as religiões afro.

Nada disso se perde nesse raiar do terceiro milênio. Vivenciar o amor é uma ação que se prega por toda e qualquer segmentação religiosa ou filosófica dentro de contextos espirituais. Historicamente, formulamos bases culturais que padronizam uma evidência para se amar, incondicionalmente, que nos define como irmãos e pessoas semelhantes. Opor-se a esse paradigma, é fazer-se pecador, criminoso ou distante da figura magnânima de Deus, Oxalá, Buda ou qualquer outra divindade que dá sustentação às interpretações humanas. Consequentemente, passa a ser tratado com (in)diferente às regras sociais e marginalizado.

Dentro disso tudo, contudo, o que é e como, de fato, é vivenciado esse tal amor que deveria nos condicionar?

Amor é uma palavra latina, derivada de uma base indo-europeia que designa à imagem da mãe. Interessante, a linguística define um sujeito, a mulher, que é mãe e que, incondicionalmente, doa seu afeto, sem questionamento e com passividade. Uma construção ocidental idealizada pela igreja católica institucionalizada que trás a figura feminina no século IV com a finalidade de fortalecer o Império Romano através da consolidação de outra instituição, a família. Tudo muito conveniente. Aliás, um projeto quase agraciado com o conceito de qualidade total, afinal a mulher incorporou esse papel, famílias foram construídas e a cultura e célula social sólida se estabeleceram. Será que não deu certo?

A grosso modo, foi perfeito, mesmo com a queda Romana, entretanto, amamos pouco e interpretamos muito. Fernando Pessoa, sabiamente, conseguiu traduzir essa minha impressão em alguns de seus versos:

“O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…”

(O Amor, Fernando Pessoa)

          Amar, muito mais que uma ação, é um sentimento. Sentir não é um processo de adestramento ou imposição, mas, sim, de formação e de desenvolvimento. Não é algo que se internaliza através de verborréias, mas, tão somente, germinado, pela ação. Aprender, equivocadamente, a sentir o amor, conduz-nos à repulsa, ao distanciamento desse sentimento e à adoção de afetos opostos. Fomos treinados a amar independentemente do respeito mútuo, da admiração e da coerência entre palavras e atitudes. Fomos preparados a amar independentemente de uma razão clara e coerente para nos dedicarmos, intensamente, a essa que deveria ser, factualmente, a grande condição humana. Fomos submetidos a um amor obrigatório, que necessitava exisitir, mesmo que sem razão, sem sntido ou desprovido de tal sentimento. Aprendemos a amar por hierarquia, por obediência, por interesse e por conveniência. Alguns, porém, conseguiram extratificar desse processo, que amar, vai bem além de um comportamento condicionado, percebendo que amar é um devir óbvio da própria evolução humana, digo, o único, real e sólido sinônimo de crescimento da vida.

          Por tudo isso o amor proprocionou a construção de diferents aparências, levando a expressões convenientes, intolerâncias reprimidas e conflitos inseçantes, festejados, amorosamente, em datas comemorativas.  Edificamos mas caramentos sociais, adornados de expressões amorosas. Estruturamos uma rígida percepção e pensamntos voltados para a manifestação de um amor socialmente aceito. Definimos, paradoxalmente, uma inteção de hostilidade com leve sabor e aroma de uma lingagem de “te amo” para fazermos de conta que temos o sentimento alheio sob controle. Uma ilha de fantasias que nos isola à sombra da ilusão de reuniões festivas, cercadas de pessoas que precisam da sensação de pertencimento.

          E nisso tudo, onde entra a condição autista? Pessoas na condição auitsta não são convidados para essas festividades. São barradas e afatadas por serem definidas como pessoas que não amam, não sentem, são rígidas cognitivamente e não se motivam para estrem ou conviverem com pessoas. Verdadeiros antagonistas da ilusória tentativa de promover o tão sonhado amor social, que repele o diferente, adotando uma ação absolutamente paradoxal àquilo que revelam como amor incondicional.

“Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!”

(O Amor, Fernando Pessoa)

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