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Reflexões sobre a condição autista tardia

Intolerância

Intolerância é a não capacidade de gerar paciência para aguentar. É a inabilidade em manter a paz interior em virtude de um estímulo externo. O que chama à atenção é que esses estímulos se referem muito mais às pessoas do que às coisas. Aliás, vale ressaltar que, nunca vivemos um momento em que a intolerância esteve tão aguçada como nos últimos anos.

Pessoas na condição autista formam um dos vários grupos vitimados por essa questão. Até a formalização de seus diagnósticos, são desqualificadas e intituladas como estanhas ou esquisitas. Depois, desconsideradas por sua condição e malditas por informarem que aquelas pejorativas palavras se justificavam por um processo inato, neurológico, denominado de condição autista.

Infelizmente, a intolerância não fica estagnada nesse aspecto. As pessoas na condição autista são mantidas marginalizadas, incompreendidas, sem acesso ao devido suporte às suas necessidades. Pior, até mesmo quando protegidas por leis formais, não são atendidas e menosprezadas pelo fato de serem tidas, indiretamente, como mentirosas, não precisando de nenhum tipo de auxílio, ou, efetivamente, incapazes para a realização de qualquer atividade, dando a impressão de  que incomodariam menos ficando em casa do que atrapalhando todo e qualquer sistema social dos quais têm direito em se aproximarem, interagirem e lá permanecerem.

Não reconhecidas e excluídas, e isso é sentido intensamente, visto que a condição autista provoca uma sensibilidade emocional elevada, essas pessoas optam pelo afastamento, a reclusão e isso se desdobra em sentimento de impotência, incapacidade e inadequação, potencializando uma desregulação emocional natural que leva a formação de comorbidades e a uma forte inclinação para não ter motivos para continuar vivendo.

Profundamente entristecedora essa realidade. Entretanto, isso não pertence com exclusividade à condição autista. Mulheres, diferentes gêneros, grupos religiosos, opiniões políticas, classes sociais, etnias, e muitos outros grupos passam exatamente pela mesma situação. O que assusta é que comportamentos aleatórios experimentam a intolerância em nosso dia a dia, percebidos no trânsito, no comércio, nas atividades esportivas, nas de recreação, nos lares, nos ambientes de trabalho e assim, sucessivamente. É uma corrente de ruptura do princípio do bom senso e da paz.

Isso pode ser analisado pela ótica de que há, socialmente falando, igualmente, uma condição que estabelece a ruptura de limites ao espaço, ao tempo e a individualidade do outro. Essa categorização faz com que as outras pessoas sofram bem mais do que o sujeito que, persistente e recorrentemente, adota o comportamento da intolerância, gerando dor, sofrimento e doenças a todos os membros desses diferentes grupos.

De fato, podemos verificar, com facilidade, que essa premissa, constitui uma doença social, com impacto generalizado e amplo. Surpreendentemente, essa verificação passa pelo crivo do socialmente aceito, agravando-se, pois é repassada pelo processo de aprendizado comportamental que as novas gerações vivenciam, espelhando-se nas atitudes dos mais velhos que disseminam esse mal como um tipo de luta saudável entre o que julgam ser bom em detrimento aquilo que define como sendo nocivo ou errado para sua pequena grande maioria.

É preciso refletir que esse” bem-estar” combativo da civilização é o fomentador do grande mal-estar e adoecimento da humanidade.

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Autismo em Foco | Vozes que sentem
Reflexões, vivências e descobertas sobre o espectro autista — com ênfase no diagnóstico tardio.
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