Muito mais do que um conceito consciente e claro, a felicidade é uma condição ambicionada. Para os dias atuais, talvez, uma ostentação. Isso se justifica pelo padrão paradoxal que as pessoas impõem às suas vidas: o conflito entre o desejo em alcançá-la em contraposição a um conjunto de atitudes que as distanciam desse estado, transformando essa tal felicidade em um elemento muito mais delirante do que real. Vamos verificar?! Você já se permitiu, analisar em detalhes, se de fato, permite-se viver a sua felicidade?
Precisamos construir algumas reflexões. Há uma premissa que pauta a rotina das pessoas, a insatisfação. É muito comum não observarmos a realização com aquilo que determina o estado atual de vida do indivíduo. Percebe-se, repetidamente, uma ânsia para sempre se alcançar algo distante, que se almeja, porém, não pertence. Isso leva a um deslocamento no tempo, vive-se para o futuro, abandonando importantes situações no presente. É importante ressaltar que o futuro não nos pertence e essa inclinação nos faz viver pouco o aqui e o agora, tornando-nos, filosoficamente, mortos.
O interessante é que isso vai além. Assim que se alcança o que se almejava, imediatamente após, desestimulamo-nos e nos desmotivamos e passamos a buscar algo ainda melhor sobre o que conquistamos. Um ciclo ininterrupto, vicioso e nada saudável. E não falamos simploriamente em uma busca pelo desenvolvimento e crescimento, mas, sim, de um preenchimento incansável sobre nossas insatisfações.
Esse desgosto presente pode ser definido, no mínimo, há condições para se pressupor as razões. O instante presente é alicerçado pelas escolhas que fazemos ao longo da caminhada da vida. Essas escolhas são estruturadas por sensações prazerosas que tomam conta, imediatamente, do momento que se está vivendo. Não se busca satisfação, uma condição sólida e de longo prazo que leva à plenitude, mas, tão somente, uma sensação imediata. Uma ilusão. Avaliem comigo como é o funcionamento desta dita humanidade. Nem sempre, aliás, várias vezes, não há uma certeza sobre as escolhas feitas. As pessoas são levadas pelas ondas da maré. Por que estou no trabalho que atuo? Por que escolhi essa profissão? Por que optei em casa? Afinal, por que ainda me mantenho casado? Por que tive filhos? Por que sigo determinadas filosofias de vida ou padrões religiosos? Por que parece que existe uma insatisfação recorrente em meu dia a dia?
Depois das indagações filosóficas que nortearam a evolução humana, como quem sou? De onde vim? E para onde vou? Essas passaram a ser as dúvidas mais dilacerantes de uma estatística significativa da população. Meus 31 anos de vida clínica e a experiência de 53 anos de vida me fizeram receber esses questionamentos de maneira persistente. Assim como pude observar sentimentos consequentes e recorrentes, derivados dessa dinâmica ininterrupta. Frustrações, tristeza, angústia, intolerâncias e, fundamentalmente, uma inconformidade com a alegria alheia, mesmo que essa seja da ordem delirante. Ou seja, até as ilusões alheias passarão a serem desejadas nesse jogo entre o viver o instante presente e o edificar castelinhos idealizados em um tempo qualquer mais adiante.
Uma verdadeira guerra entre aqueles que conseguem viver menos e fantasiar mais. E o que tudo isso teria de relação com as pessoas na condição autista? Inicialmente uma resposta simples, igualmente, são reses humanos. Depois, diferentes como qualquer um e que vivem alguns aspectos bem singulares. A condição autista impõe uma necessidade muito maior de viver o aqui e agora. Há uma auto-observação contínua sobre suas diferenças, a não igualdade em relação aos outros e uma necessidade de sobrevivência a esse conflito em se sentir distante daquilo que é tido como comum, correto e saudável. Em relação ao futuro, a preocupação que isso se mantenha, repetindo a angústia das competições comparativas e da própria sobrevivência a tudo isso.
Nisso tudo há um erro determinante à saúde mental de toda uma sociedade. A anulação de um devir sobre todas as qualidades e aptidões que temos a oferecer ao fenômeno vida, a beleza de nos desenvolvermos, enquanto indivíduos, para um crescimento contínuo, onde não haja rivalidade para com os outros e sim uma satisfação em crescer dentro do universo daquilo que somos e nos definimos enquanto pessoas. Creio que isso nos faria mais leves.
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