Era com essa expressão que os romanos definiam o limite entre campos para diferentes agricultores. Daí, originou-se a definição para a palavra limite. Isso se reporta a sujeitos diferentes, proprietários de áreas de terra desiguais, enfim, uma determinação daquilo que pertence e caracteriza cada um. Isso deve ser aplicado a toda e qualquer peculiaridade que define a pessoa. Cor de olhos, altura, tonalidade dos cabelos, peso, perfil introvertido ou extrovertido, habilidade em matemática ou linguística, valores e toda uma outra infinidade de elementos que dão personificação a personalidade única de cada um.
Vou tentar traduzir de maneira prática e simplória: João almoça se alimentando com garfo e faca; Já Maria, faz uso de colher e Pedro, esse come com as mãos. Três personagens, realizando uma mesma tarefa de maneira diferente. Qual o melhor ou pior método? Dentro da lógica, não há como se definir isso, entretanto, ritos e padronizações apontaram o garfo e a faca como o meio mais adequado. Já os princípios humanos e emocionais ditaram que aquele que se sente melhor dentro do que exerce, esse escolhe o que que é de maior valia para si. E aí poderíamos divagar e dissertar centenas de linhas sobre esse exemplo. Vamos intensificar a análise. João pega seu garfo com as mãos, Maria com a boca e Pedro nem para observar como esses manejam seus instrumentos. Dentro da razão, todos se alimentam, cada um da sua maneira, porém, o senso comum julga de uma forma João, de outra Maria e de imediato, ignora Pedro, porque esse já se excluiu por se alimentar com a boca, sem o uso do material adequados.
Bobagens essas descrições, certo? Calma, vamos encorpar e dar complexidade: João se alimenta uma vez ao dia e, repetidamente, ingere, apenas, sardinhas em lata. Maria faz de cinco a sete refeições por dia, varia sempre o cardápio e opta por ter um rol de muitos nutrientes em cada refeição e Pedro comia, entre as várias refeições que faz, um sanduiche e uma fruta qualquer. Ele come muito, mas sem focar em nutrição.
Nesse instante, João é julgado, persistente e recorrentemente, por ser mal alimentado. Maria enaltecida e, Pedro, mesmo com requinte saudável diferenciado, elogiado e, ocasionalmente sugerido a variar um pouco para ter uma saúde melhor.
João, um belo dia é diagnosticado na condição autista. Maria, comendo qualquer bobagem, sempre é advertida, pois precisa manter o padrão de bem-estar e Pedro é esquecido até o dia que eventualmente desenvolver alguma doença. Vamos focar em João e continuar nossa análise sobre limites.
Para alguns, João precisa ser “forçado” a experimentar outras comidas. Outros afirmam que João precisa ficar sem comer, porque tendo fome vai se obrigar a experimentar diferentes alimentos. Um outro grupo não permitirá João levar sua sardinha para o trabalho ou escola porque ele tem que comer aquilo que é oferecido e, alguns, tentarão, junto com João, desenvolvê-lo para conseguir ampliar o cardápio e passar a ter uma qualidade de vida maior. A ação de forçar e privar, certamente, levarão João a se desregular emocionalmente, ter crises, shutdown e meltdown, intensificar sua rigidez cognitiva.
Em toda e qualquer situação mencionada através dos exemplos dados, os três sujeitos, João, Maria e Pedro, tiveram o caminho entre seus espaços violados por conceitos autodeterminado, rigidamente, como corretos e impostos a seguir. Ou seja, qualquer pessoa na sociedade, que, eventualmente, fuja da regra, é violado em seus limites. Isso é feito com julgamentos e preconcepções, invalidando a realidade e a verdade individual do outro.
No caso da condição autista isso não ocorre apenas pela seletividade alimentar, diferentes comportamentos, modo de funcionamento, reações comportamentais e emocionais são violadas pela invasão de certeza, irracionais, relativas às verdades constituintes das crenças sociais. Importante ressaltar que quanto mais intensa a distância dos padrões, mais agressiva é a ruptura dos limites e a condenação dos sujeitos.
O que não se compreender é que cada um de nós apenas queremos exercer o direito e a liberdade de nos “alimentarmos”.
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