Parafraseando o magnífico poeta John Lennon, vamos fazer um exercício fictício, contudo, de importante reflexão. Imaginemos esse nosso planeta sem nenhum tipo de instituição religiosa, bandeira política, inclinações filosóficas ou qualquer outro tipo de agrupamento que rompe com a organização social. Imaginemos um mundo assim, onde a proposta será reconstruir o respeito à individualidade, o respeito às diferenças e a consolidação de um princípio de equidade.
Como seria para cada um de nós sermos instrumentos da paz para a realização de cada pessoa que habitasse esse espaço? Teríamos habilidades para preencher as lacunas deixadas pelo ódio por um sentimento mais elevado, como o amor? Saberíamos, predominantemente perdoar, ao invés de ofender? Semearíamos a união ao invés da discórdia? Na ausência de um Deus, conquistaríamos a fé em nós mesmos, ao invés de uma dúvida perpetuada por séculos no suposto mundo que deixara de existir? Buscaríamos construir a verdade e impediríamos a semeadura dos erros? Passaríamos a ter uma vida com mais esperança, ou voltaríamos a nos desesperar pela necessidade do poder e do domínio? Teríamos momentos mais frequentes de alegria ao invés de tristeza? Ou embotaríamos em lembranças passadas e voltaríamos a ter a necessidade de sermos mais consolados do que consolar o caminho de crescimento do outro? Não sei se compreenderíamos uma nova situação, ou nos lamentaríamos, em tristeza, ou, até desespero, para que nossas dores fossem compreendidas.
Amaríamos mais do que sermos amados?
Creio que hoje, isso seria da ordem do impossível. Por quê? Considerando que John Lennon profetizou e, até hoje seus versos são cantados em todos os cantos desse planeta, suplicando para as pessoas viverem o presente, sem um inferno abaixo delas, sem nenhuma razão para se matar e com todos vivendo em paz. Apesar de venerado e com profunda admiração e reconhecimento, mantemos, exatamente, um mesmo padrão d conflitos, desgastes e competições entre os homens. Podemos ir além, muitos outros filósofos, espiritualistas, cientistas, indivíduos de diferentes segmentos, pregaram, de maneira semelhantes, esse mesmo princípio, em diferentes épocas da história. Até mesmo Jesus Cristo o fez, igualmente divinizado e ao mesmo tempo usado para os interesses e conveniências de tantas pessoas e diferentes grupos.
Dentro do mesmo princípio, argumentativo, não seria necessário ilusionar um mundo ideal para tentarmos supor algum tipo de transformação. Com boa vontade e compaixão, alteraríamos várias das máculas que mancham o cenário social que enaltecemos e, ao mesmo tempo, fazemos de conta, omitindo, que não é cercado por um conjunto quase absoluto de traumas e mutilações a milhões de seres, tidos, como nossos semelhantes.
E nada, ou, muito pouca coisa se modificou. Pessoas morrem de fome, pela ganância, outras são mortas, pela ira, grupos diferenciados, ditos minorias, são flagelados pela verdade autoritária, não tem alcance à educação, ao saneamento básico e sofrem limitações torturantes relacionadas à sobrevivência. Aos tratados como deficientes, esses, então, expurgados do direito de participarem ativamente e de vivenciarem sua cidadania com dignidade. E estamos no terceiro milênio, dominamos amplamente a tecnologia, conquistamos as esferas cósmica, o fundo do mar e desvendamos os mistérios infinitos do corpo humano, da fauna e da flora, dominando-as com crueldade.
Com todas essas veracidades, louvamos a ambição que contempla a música de John Lennon, resgatamos os conteúdos de tantos homens que tentaram nos chamar à atenção, e, ajoelhamos, oramos e proclamamos por um mundo melhor… O meu mundo melhor para mim. Engessamos o egoísmo, lutamos, isoladamente e, paradoxalmente, conduzimo-nos em direção distante a esse bem-estar de todos.
Com excelência internalizamos a equidade para um eu soberano, onde toda e qualquer diferença ou oposição, rivaliza e ameaça o devaneio de plenitude desse paradigma.
Francisco de Assis, inspiração para meus questionamentos, não precisaria se reportar ao Senhor em suas afirmações. Bastaria narrá-las a cada um dos homens, entretanto, não seria devidamente acolhido por sua insurgência, assim, como tantos outros padeceram nessa história desgovernada que estamos por construir.
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