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Reflexões sobre a condição autista tardia

Uma Usina de Baixa Autoestima

A baixa autoestima é um processo produzido pelas relações sociais e experiências internas vividas pela pessoa. Socialmente, as comparações e a competitividade, quando se rivaliza com o outro, produzimos uma intensidade imensurável desse sentimento. Aliás, essa matéria prima é responsável por uma quase totalidade de sujeitos com baixa autoestima e seus consequentes desdobramentos.

          Fomenta-se uma cultura confrontos. Somos ensinados e treinados, desde o nascimento, a buscar no outro, nas coisas que não nos pertence e em condições que participam da rotina dos demais, um tipo de idealização divinizada. É como aquilo que estamos, somos ou temos fosse de menor valia e o sentido maior da nossa caminhada estivesse focado em nos tornarmos iguais a esse tipo de ilusão. Tal pensamento é transformado em ação, na internalização de comportamentos que objetivam a efetiva conquista para esse ideal. Entretanto, como abandonamos um princípio próprio e nos mantemos nodos alheios, obviamente passamos a competir com esses e construímos um outro desejo, o de superá-los. Assim, desenvolvemos o espírito da rivalidade, onde deixamos de ser equitativos, parceiros e determinamos uma luta de um único vitorioso.

          O que não é percebido, é que a realidade do outro muitas vezes não corresponde com a sua e aí vivenciamos um ciclo interminável de buscas com frustrações ininterruptas. Nada é bom com duração, tudo é um prazer, momentâneo, que pela rapidez gera uma sensação de vazio e um ímpeto para se idealizar, mais uma vez, algo novo. Isso é ter uma dinâmica de funcionamento pelo outro e não para si. Isso se aplica aso paradigmas e as regras sociais, onde hábitos, costumes e sentimentos generalizados, igualmente são ambicionados, mesmo que não se equivalendo à sua realidade interna.

          O espelhamento no outro faz construir um perfil de referência onde todos deveriam seguir para a conquista de algum tipo de vitória, ou várias vitórias. E de fato, não podemos negar que o sucesso também é conquistado. Analiticamente, a perpetuação dessa cultura e a manutenção de uma mesmice rotina de padrões é o símbolo desse alcance. Analiticamente, é válido questionar: afinal de contas, quem é o sujeito que saboreia dessa tal vitória e suposta gratificação. Na grande maioria das vezes não é o indivíduo. Predominantemente, a manutenção do Estado (referencio-me à sociedade) é quem se mantém estabilizada.

          Pressupõe-se, com essa observação, que isso gera uma incompatibilidade relevante com tudo aquilo que se opõe ao paradigma social e que para sua autopreservação, procura marginalizar do centro das relações sociais para que não haja nenhum tipo de contaminação ou prejuízo. Talvez, por essa razão, é que secularmente somos testemunhas das desqualificações sofridas por grupos minoritários que se opõe à manutenção dessa realidade.

          Individualmente, o resultado obtido na competição consigo mesmo pode levar a uma baixa autoestima, contudo, para pessoas determinadas e fortalecidas em seu autodesenvolvimento, isso é situacional e natural para o crescimento.  Mesmo assim, a sensação de não pertencimento e de exclusão acionam, deliberadamente, a certeza de uma baixa autoestima pela pressão e combate do senso comum.

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