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Reflexões sobre a condição autista tardia

Afinal, Devemos Participar?

Fazer parte, naturalmente, pressupõe que se deve tomar o lugar e, efetivamente, bem-viver sua participação sobre aquilo que é seu. Essa é a etimologia da palavra latina participar. Seguindo uma linha de raciocínio e de experiência humana, cada indivíduo tem o merecimento não apenas de estar, mas, de ocupar, plenamente, diferentes espaços designados à condição humana.

          Teoricamente nos cercamos de textos, vídeos e até leis exuberantes que afirmam, categoricamente essa possibilidade. Entretanto, verifica-se uma oposição a esse cabedal de narrativas no dia a dia dentro das vivências sociais. Observam-se diferentes grupos que estão em vários sistemas sociais, contudo, são engolidos e não conseguem participar e estarem incluídos. Diferentes classes sociais, raças, grupos religiosos, pessoas com necessidades diferenciadas, gêneros, comportamentos opostos aos pregados pelas diretrizes sociais, enfim, muitos que desejam, tentam, mas colhem frustrações repetidas no sentido de não se sentirem aceitos e muito menos estarem ocupando seu espaço dentro do reduto que, essencialmente, é de também de seu pertencimento.

          Mesmo com a infinidade de discursos direcionados à equidade e ao direito humano, essa questão se perpetua por séculos dentro da história humana. Tão verdadeira essa afirmativa que foi necessário resgatar conceitos e sentimentos para uma tentativa de inclusão. Mesmo o senso comum fazendo um tipo de usocapião sobre o direito de uso do espaço social que deveria ser compartilhado, moralmente, percebeu-se que algo precisaria ser feito para não escrachar com tanta rispidez a desigualdade e a condenação de tantas pessoas marginalizadas do espaço e do tempo dos quais deveriam ser, devidamente, usuários.

          Aplicaram-se, então, as prerrogativas da obrigatoriedade através das leis de inclusão. Sim! Obrigatoriedade, afinal, acolher e permitir com que a pessoa seja e viva o que é, deveria ser um impulso meramente óbvio, espontâneo. Infelizmente, como não é, vamos estabelecer o dever. Tão verdadeira essa triste e insana afirmação, que mesmo diante da lei, não se inclui, simplesmente se ajeita.

          Toda essa maneira de se ajeitar é erguida através de uma batalha de informações, definidas como conhecimento. A competição se dá pelo maior número de argumentos e de imposições, combates de supostos saberes e uma inquestionável vitória de uma maioria sobre inúmeros grupos minoritários que enfraquecem diante das pressões. Cotas não são apenas questionadas, mas odiadas, a participação de crianças no processo de aprendizado é colocada em dúvidas, definidas como incômodos para essa maioria, mulheres permanecem ganhando menos e tendo as atividades domésticas como plus às obrigações e seu processo de desenvolvimento. Pessoas trans agredidas e negros presos por serem sempre os primeiros suspeitos de crimes. E assim vamos conduzindo de maneira poética nosso cotidiano, tornando público conquista isoladas de pessoas vencedoras como se falássemos da benevolência de uma sociedade fraterna e caridosa, pior, descrevendo de maneira equivocada que somos, enfim, amorosos e acolhedores. E no final de tudo ajoelhamos, oramos e pedimos a luz divina para que esse imenso planeta continue promissor e em evolução.

          Sim! Todos devem fazer parte e participarem, mas, para isso, é preciso eliminarmos o fazer de conta, darmos coerência ao que pensamos e fazemos e, com princípios pífios de respeito e dignidade, permitir, verdadeiramente, que cada pessoa se torne o que é, dentro de suas características e potencialidades. Infelizmente, estamos longe desse rol de características humanas edificantes.

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