Ah! A gentileza. Quantas vezes não pensamos como seria bom se alguém observasse as nossas necessidades, colocando-se à disposição para auxiliar. Sabe aquelas sacolas pesadas que você carrega, um pneu furado, a orientação para realizar alguma tarefa em um posto bancário qualquer ou, até mesmo, singelamente, alguém que pergunte se está tudo bem com você naquele instante em que, visivelmente, você expressa um sentimento de aborrecimento. Factualmente, isso não é recorrente, aliás, comumente se percebe um ignorar justificado pela pressa, a responsabilidade de outros compromissos ou a ideia de que cada precisa se virar com suas dores. Isso é cultural, apesar de sucessivas sensibilizaçãoes que toma conta das pessoas quando alguma reportagem que reporta boa vontade se torna pública, levando a uma definição de beleza, bondade …, mas que de imediato nos faz esquecer e nos lançarmos, mais uma vez, as tantas tarefas fundamentais que realizamos para o bem-viver.
Creio que isso não significa que não tenhamos condições para a realização de tarefas paralelas, ou seja, fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Ao longo de tantos anos vividos e, com a experiência de escuta que me cabe, percebo que os alicerces que sustentam as prerrogativas da empatia e da compaixão, são humanamente fragilizados. O senso comum é voltado para o seu EU, para suas conquistas e para sua estabilidade. Há uma dificuldade muito grande em, verdadeiramente, aplicar-se à prática de uma fraternidade e de uma caridade. Não há um suporte real para o desenvolvimento pleno da cooperação e, poeticamente falando, de uma caminhada de mãos dadas, lado a lado. Caso contrário, não ignoraríamos os necessitados, aqueles que passam forme, frio, os que não têm recursos essenciais para a sobrevivência. Não nos irritaríamos tanto, nem demonstraríamos sinais evidentes de agressividade ativa e passiva. Não negligenciaríamos as próprias escolhas que fazemos ao longo da vida, como as responsabilidades profissionais, conjugais, paternas e maternas. Mas, enfim, assim caminha a humanidade.
Vejam que me refiro ao mundo comum, aquele que pertence e participa todos nós, sem distinção. E sobre os demais, os que estabelecem relações à margem do senso comum? As pessoas com necessidades especiais para participarem de todo esse mecanismo de viver? Temos o grupo das pessoas que, visivelmente, mesmo ignorando, não há como saber que não precisam de suporte. Refiro-me as questões físicas, as mentais e intelectuais que fogem dos padrões usuais entre outros. Para a sociedade conseguir suportar com menor desconforto, submetem-se a leis para os obrigá-los a dar condições de vida a esse grupo. É fato que se compaixão e empatia de fato fosse uma prática social, não precisaríamos de leis e apenas aplicaríamos o bom senso, valores e o justo, infelizmente, como essa prática é forjada e mascarada, vamos às legislações.
E os invisíveis?! Agora pontuarei um único segmento, mantendo meu respeito e admiração a todos os demais, quero falar de pessoas autistas diagnosticadas tardiamente em nível I de suporte. Essas pessoas, cotidianamente, são pressionadas, desqualificadas e excluídas, desde suas relações familiares, as mais informais e íntima, nas filas dos comércios ou prestadores de serviços, nos centros de atendimento voltados à saúde e em diferentes sistemas sociais que procuram participar. São definidas, empiricamente, como fracas, fazendo corpo mole, acomodadas em seus diagnósticos. Definitivamente, são pesos e aborrecimentos para um conjunto muito grande de pessoas. Não bastasse isso, para agravar ainda mais, são destruídas por um número significativo de ditos doutos do conhecimento e da ciência, profissionais, que desdenham, riem e não conseguem enxergar uma lógica para esses serem auxiliados, diagnosticados ou muito menos tratados. Não são vistos como humanos que buscam ajuda especializada, mas pessoas que incomodam e atrapalham suas agendas de trabalho e tiram o lugar daqueles que esses clínicos definem como pessoas que de fato precisam de alguma coisa, mesmo que também sejam definidas, algumas vezes, como inconvenientes. Tudo isso explicitamente, ou veladamente. Uma postura de insuportabilidade à necessidade do outro. Verifico isso diariamente através dos relatos de centenas de pessoas.
Convido, então, a uma reflexão sobre essa real necessidade de suporte. Vem comigo!
A condição autista é um quadro do neurodesenvolvimento, de base genética, provocando uma estruturação fisiológica, anatômica e neuroquímica diferentes no Sistema Nervoso Central. Uma dinâmica sensório motora, onde a hipersensibilidade sensorial gera sobrecargas e crises, como consequência, leva a uma reação motora, alterando o funcionamento gastrointestinal, neuroendócrino, metabólico e fazendo com que as pessoas se tornem mais suscetíveis a doenças imunológicas. Além disso, existe uma ansiedade ao contexto social veiculada a estimulação, o toque e as dificuldades relacionadas à linguagem expressiva e receptiva. Pessoas diagnosticadas tardiamente promovem uma adaptação ao meio através da força do ódio e, mesmo assim, agarravam amplamente todos esses sinais.
Ao longo da minha vida profissional já avaliei um número elevado de adultos diagnosticados tardiamente, todos com inteligência e fala preservada, critérios miseráveis para o senso comum justificar que eu falo de seres plenos e totalmente capazes a seguir a bula social. Aliás, muitos deles de uma capacidade intelectual invejável. Porém, um percentual importante desses avaliados, privados do direito de ir e vir, de terem suas liberdades tolhidas pelo fato de permanecerem encarcerados em uma condição desconhecida para eles, autista, vivendo todos os dias em um mundo neurotípico. Pessoas que, normalmente, apresentam comorbidades clínicas, que para saírem de casa travam uma batalha imensurável, que não conseguem, espontaneamente, comprarem um pão na padaria, um remédio na farmácia ou passear em lugares de lazer. Temos aqueles que trabalham, mas com desgaste terrível para usarem o transporte coletivo e que retornam para suas casas em uma exaustão quase mortal. Muitos que não conseguem se manter nos seus empregos, outros que nunca conseguiram seguir com seus estudos ou trabalhar. Por sorte são mantidos por familiares, pelos serviços de compras virtuais ou entregas em domicílio. Sobrevivem, mas, sem o merecimento de viverem. Pessoas que se pais, mães, esposas, maridos, seja quem for, se afastarem por qualquer razão, transformarão tudo isso que é difícil em algo praticamente intransponível. Mesmo assim, são julgados e condenados a terem uma vida comum.
Não, eles merecem vida digna, porém, precisam de suporte. Definitivamente, não é necessário e nem pouco recomendado, o julgo social muito menos a soberba desprovida fatos, dos especialistas que se endeusam.
O que tenho muita dificuldade para compreender, mesmo com esses anos de vida, é o porquê da insuportável necessidade de suporte que se sente e vive diante de outras pessoas que poderiam melhorar sua qualidade de vida com pequenas atitudes, com respeito e dignidade.
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