Uma característica fundamental da condição autista é a hipersensibilidade sensorial. Definida com uma sensibilidade bem mais intensa sentida nos órgãos sensoriais: tato, olfato, paladar, audição e visão. Com a finalidade de gerar algumas explicações àqueles que se frustram, não compreendem e não aceitam, gostaria de descrever aqui a hipersensibilidade tátil, especificamente quando se trata das camisas de força sensoriais. Tá, mas afinal, o que é isso?!
Roupas!
Para um número significativo de pessoas na condição autista, as roupas se assemelham a um corpo que se veste com um traje feito com arame farpado. As etiquetas beliscam como pontas agudas de facas, ou, arranham como unhas afiadas de gatos. Uma sensação nada confortável. Alguns tecidos dão a sensação de aprisionamento, um tipo de aderência sufocante tipo plástico amarrado na cabeça. Podem, igualmente, transparecer a sensação de esfoliação, mas, essa, sendo realizada com pregos. Em verdade, dependendo da textura desse tecido, múltiplas sensações odiosas, imediatamente, são geradas em todo o corpo. Como que isso é verificado? Essas pessoas passam a manifestar sintomas físicos, como alergias e coceiras, dores de cabeça, sensação de exaustão e, também, as emocionais, como irritabilidade, ansiedade e até angústia.
Mas o que é ruim, indubitavelmente, fica pior. Mesmo tirando etiquetas e encontrando texturas adequadas, roupas apertadas se transformam no ícone dessas camisas de forças. Sabe aquela roupa justinha, sensual e que serve para dar mais beleza para o corpinho? Nem pensar! A sensação é a mesma que o homem da máscara de ferro teve quando esse ornamento foi instalado no rosto dele. Apele queima, gera dor e a percepção de que algo terrivelmente ruim está te relando, incessantemente, tá ali. O lance é estar hiperfocado em roupas largas, preferencialmente surradas pelo tempo e que já vem sozinha vestir o corpo pelo costume de anos usando as mesmas peças.
Essa é a razão pela qual a pessoa na condição autista compra estoques de uma mesma roupa, uma mesma marca e um mesmo modelo. E seu souber que vão parar de produzir, vai lá e compra um outro tanto para várias encarnações. Não é atoa que pijaminhas da adolescência são imortalizados nos guarda-roupas, calças de moletom são divinizados em pedestais mentais e peças íntimas têm mais remendos que almofadas de costureiras ou alfaiates. Isso é exatamente igual para calçados, que precisam ser amaciados, esfarrapados e com perda total do tecido ou outro material para não ser sentido pelo pé.
Aí se constrói um repertório de looks exclusivos, só veste um único tipo e padrão de roupa e as pessoas passam a acreditar que autistas não lavam roupa ou que não têm condições para comprar outras vestes. Um caos estético para o mundo neurotípico. Quando nada disso ajuda, é acontece com várias pessoas, fazer da casa um campo de nudismo passa a ser top da balada e a pessoa vai sim permanecer na informalidade como veio ao mundo.
Familiares, colegas de trabalho, sociedade em geral, isso é sério!!!!!!! Respeitem essa necessidade e parem de encher o saco alheio! Sem sombra de dúvida na hipersensibilidade tátil, a pessoa pode desenvolver ajustes, implementar formas diferentes relacionadas às roupas, porém, SEMPRE, dentro da necessidade que o faça evitar a sobrecarga e, consequentemente as crises sensoriais. A pressão, a desqualificação, as piadas sem graça só levam a uma piora dessa e de outras características.
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