Socializar é a habilidade para se aproximar, interagir e manter a aproximação com outras pessoas, de maneira eficaz, resoluta. Antropológica e, biologicamente, afirmam-se que a socialização é inerente às características humanas. Indubitavelmente, essa máxima é correta. A participação entre as pessoas se dá, naturalmente, por uma conveniência, ou, por identificação. Conveniência não no sentido pejorativo da palavra, apesar de também acontecer, mas, sim, pelo propósito em concordar desejos e necessidades, adequando questões e aspectos comuns e unindo os envolvidos. Já o processo de identificação, esse provoca uma proximidade em virtude do princípio de equidade ou igualdade, potencializando a motivação para desencadear ações, descobertas ou estruturas de vida.
Entretanto, para que, efetivamente, a ação para socializar se concretize, é essencial a pessoa, individualmente, estar carregada, em si, de motivação para a socialização. Motivação é o que justifica o movimento para socializar e dar continuidade a agregação com pessoas. Motivação social é uma habilidade social, pertencente ao conjunto de potencialidades neurognitivas do indivíduo. Dentro de um universo neurotípico isso é comum, entretanto, um percentual significativo de pessoas na condição autista, expressam uma motivação social inferior, ou, abaixo da média da população.
Qualificando esse dado, na maioria das vezes, a pouca motivação social de um indivíduo na condição autista não está relacionado, diretamente, a(s) outra(s) pessoa(s). Genericamente o impulso para as vivências sociais estão atreladas aos focos de interesse que pertencem às características pessoais de cada indivíduo dentro da condição. Por exemplo, sair para comer o alimento específico, no mesmo lugar de sempre e no horário condizente com seu planejamento e rotina. Assistir ao filme que corresponde aos estudos em suas pesquisas e hiperfoco. Caminhas em um parque, preferencialmente em um horário com o mínimo de pessoas possível, para poder ficar sentado embaixo de uma árvore pensando entre outros exemplos.
Essa percepção é muito relevante para a qualidade de vida e bem-estar da pessoa na condição autista. Fazer uso de afirmativas como “você precisa sair”, você tem que socializar”, você necessita ter amigos”, “ficar só em casa é péssimo”, tornam-se evasivas para os que persistem em ditar essas imposições. Simples falácias àqueles que não têm um mesmo interesse. O foco dessa pressão não é inteligente. É preciso transformar a ameaça em oportunidade, ou seja, transformar a motivação indireta em estímulo para que, de fato, essa socialização se efetive na rotina da pessoa na condição autista.
Ao invés de provocar, sem resolutividade alguma, a interação, através de referenciais pessoais, de caráter neurotípico, fazer se motivar por aquilo que pode levar a pessoa a sair de seu espaço de controle, sua casa, para um meio maior e mais sociável. O universo povoado pelo senso comum tem a crença de que aquilo que serve para a média é igualmente útil para os que não correspondem a essa premissa. Assim, teimosamente, insistem em conseguir com que todos gostem das mesmas coisas e as executem de uma mesma maneira. Afinal, o que seria do verde se não fosse o amarelo, mas nem todos conseguem enxergar e sentir as belezas do arco-íris.
Esse autoritarismo social apenas faz com que a dificuldade autista se potencialize. Em nenhum momento estou afirmando que a ação de socializar é desnecessária, muito pelo contrário, abordo um tema extremamente relevante para o indivíduo na condição, contudo, esse desenvolvimento precisa ser construído, preferencialmente, ao lado desse indivíduo e potencializando suas habilidades, interesses e oferecendo uma nova possibilidade, perspectiva e necessidade para que a interação aconteça e se mantenha. Caso contrário, muito pouco se socializará e intensamente serão gerados desconfortos, traumas e uma repugnância a essa ação tão relevante.
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