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Reflexões sobre a condição autista tardia

Ultrapassando as Fronteiras

 dos Jantares Românticos

Creio que a curiosidade e as indagações não pertençam apenas ao grupo de pessoas especializadas na área da saúde mental. Afinal, quem nunca parou para observar e se indagar sobre os jantares, supostamente, românticos, experimentados por tantos casais em noites quaisquer nos restaurantes de suas cidades. Eu, particularmente, estarreço de perplexidade com o fato de duas pessoas saírem de suas casas para se sentarem em frente um do outro, ou, lado a lado, e passarem algumas horas dominados pelo encanto de seus celulares, abandonando a sorte, o companheiro ou companheira ao domínio eletrônico e de uma vida virtual em outro aparelhinho tecnológico. Pasmo em perceber que, até mesmo quando o alimento chega, uma das mãos manuseia talheres e outra continua perpetuando as relações e a importância com a vida de outros desconhecidos que se se expõem e milhões de outras tantas telas. Sou consumido pela impressão de que se estabelece uma proforma, uma obrigatoriedade para estarem separados em um ambiente, ao menos, diferente. Nem vou detalhar o que meu pensamento promove em termos de essas pessoas vivem em suas camas quando chegam desses eventos de tamanha proximidade e intimidade.

Em verdade, não posso deixar de comprovar que o ramo alimentício vivencia muito daquilo que é partilhado nos lares diariamente, fazendo-se apenas uma extensão daquilo que dita o dia a dia dose seres humanos, dentro de uma visão genérica, padronizada pelo senso comum. Aliás, minha experiência de vida e como profissional, não deixa de testemunhar que esse padrão se estende para a relação com os filhos, enfim, para uma dinâmica familiar onde somos acolhidos e tutelados por instrumentos inanimados e sem vida que, paradoxalmente, inundam o vazio existencial de adultos e crianças com a perspectiva de se alcançar, comparativamente, uma vida ideal e plana. O engraçado é que isso vem se construindo por histórias, fotos e mensagens idealizadas e muito pouco vivenciadas por seguidos e seguidores da realidade, idealizada, das projeções sociais.

Não temos um cenário diferente ao longo das atividades diárias. Uma massa significativa de adultos limita suas relações com      computadores, contatos distantes para que a frenética necessidade de superação e alcance de metas sejam alcançadas. Crianças e adolescentes mergulham com intensidade e hiperfoco em seus celulares, ao ponto de necessitarmos de uma lei que proíba o uso desses artefatos no espaço escolar e, igualmente, eduquem os pais que não conseguem assumir suas responsabilidades em impor limite aos filhos, delegando ao mundo espiritual essa responsabilidade que cabe apenas a eles. Impor limites dá trabalho, é necessária a interação e a participação na vida dos filhos e por isso tantos pais optam em repassar a tutela desse processo aos pais eletrônicos. Não deixa de ser compreensível, afinal, as redes sociais e o site GPT são tão mais instruídos e carregados de insumos sólidos e de amparo para a formação de crianças e adolescentes. Um espetáculo!

Esse ciclo que se perpetua nas últimas décadas vem estabelecendo uma nova forma para se comportar e para produzir reações emocionais na sociedade: estabelecemos uma vida solitária, repleta de milhões de personagens que nos acompanham. Passamos a ser e nos desenvolver através de infinitas realidades, fomentando a sensação de vazio e de abandono contínua e progressiva, estimulando cada vez mais o anseio para fazer morada dentro da realidade de alguns que se segue e que invejamos.

Como consequência, minimizamos as habilidades e a responsividade social, potencializamos novas habilidades cognitivas e limitamos outras já tão bem utilizadas e, concretamente, vamos alterando a intensidade e a qualidade da aproximação, interação e manutenção das relações sociais. Cá entre nós, essa vivência em sociedade está uma bosta e cada vez piorando mais. Não afirmo isso por ser uma pessoa na condição autista, mas, por trabalhar diariamente com o sofrimento e a frustração de pessoas que têm a certeza desse abandono e a certeza de não conseguirem se aproximar desse imaginário tão belo reproduzido pela socialização digital.

Como pessoa na condição autista e profissional especializado nessa área, reproduzo diariamente uma inquietação em relação à falta de coerência entre as habilidades sociais relativas à condição autista, a postura de indignação, desqualificação e afastamento que o meio social promove em relação às pessoas neurodivergentes com essas atitudes nada sociais, porém, socialmente aceitas, pelo amplo universo de pessoas neurotípicas.

O discurso de pais que apontam a necessidade de seus filhos terem amigos, saírem de casa e se socializarem mais, e que de fato é um caminho a ser construído, dentro das características de cada pessoa na condição autista, mas, em choque com posturas individualistas e de isolamento que não combinam nada com essas falácias. Ações geram impactos no processo de formação e educação das novas gerações, logo, precisamos voltar a jantar, conversar e gerar um processo de intimidade, enaltecendo que o outro tem maior valia do que objetos inanimados.

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