Iniciei meu desenvolvimento como profissional clínico ainda nos anos 90. Confesso que ao longo desses anos tive a oportunidade de vivenciar vários fatos e fenômenos relacionados a maneira de perceber, pensar e atuar sobre a saúde mental. Sou especializado em Psicopatologia e atravessei alguns anos dessa caminhada atuando em instituições psiquiátrica, assim como tendo parceiros médicos da psiquiatria. Convivi com pacientes psicóticos, bipolares, depressivos, dependentes químicos, ansiosos e muitos outros distribuídos em diferentes decodificações descritas nas diferentes edições do DSM. Além de todo um aprendizado magnífico que essas relações me oportunizaram, pude constatar três fatos que se repetem no momento presente.
Primeiramente, essa grande população de pacientes que foram avaliados e tratados por mim, carregavam uma mesma marca: todos, sem exceção, foram peregrinos dos consultórios e serviços de saúde mental. Receberam diferentes diagnósticos, passaram por vários tipos de tratamento, muitos sem resolutividade, outros com evoluções parciais, até que, em um belo dia, tiveram confirmadas tantas hipóteses diagnósticas e seguiram construindo, aí, a qualidade de vida tão desejada.
Em segundo lugar, uma batalha travada pela soberania médica que impunha a si um poder e uma capacidade delirante sobre a o domínio e o poder para identificar e tratar esses casos. Uma cultura que desdenhava e não reconhecia outras áreas do conhecimento como parceiras para esses processos clínicos serem conduzidos. Uma batalha tão interessante que entre os próprios médicos se travavam discussões onipotentes acerca da certeza de seus olhares sobre seus pacientes, onde obviamente, todos tinham absoluta certeza sobre suas impressões diagnósticas e convicções relacionadas as estratégias medicamentosas. Como se apenas remédios fosses resolver as mazelas de tantos seres humanos. Uma discussão sem muito sentido e solidez, visto que tudo se pautava sobre a real subjetividade que expressa uma pessoa, inclusive a dos próprios médicos.
Finalizando, cada um desses pacientes, com suas respectivas características sintomatológicas, sendo combatidos e sendo definhados pela opinião pública, como se fossem criadores, inventores e falsas realidades para obterem algum tipo de ganho, ou por não terem vergonha na cara, ou por preguiça, ou pela falta de “Deus”, ou por estarem criando mais um capítulo da moda sobre a saúde mental. Isso se verifica dentro das famílias, em diferentes contextos sociais, no trabalho, nas escolas e nas perícias legais para aposentadoria ou afastamento do trabalho.
Vivi e participei de tudo isso.
Mais de trinta anos se passaram e absolutamente nada mudou, apenas o sujeito, pois hoje temos as vítimas da condição autista, a nova trendy do espetáculo promovido pela saúde mental. É importante fazer lembrar as pessoas que foram diagnosticadas com depressão, ansiedade e outros, que leem esses parágrafos, a dura caminhada que experimentaram no contexto familiar, social e profissional. Hoje são pessoas na condição autista que peregrinam, que passam por vários e diferentes diagnósticos, tratamentos sem resolutividade e são dependentes da boa vontade, da falta de conhecimento e da onipotência dos médicos para poderem ter o merecimento de saberem, efetivamente, o que acontece consigo. Isso se verifica pela narrativa de milhares de pessoas e familiares reféns desse sistema e da exclusiva decisão oficial que pode ser dada apenas pelos médicos e mais nenhum outro profissional. Da mesma forma, a população que participa das características relacionadas ao autismo, são réus de seus familiares, da sociedade, assim como são julgados, publicamente, por ditos peritos e bancas de concursos públicos que desqualificam suas condições e ironizam suas lutas para poderem colocar para fora a sua capacidade e habilidades. Exatamente igual como as outras condições passaram em anos atrás.
Vivo e participo de tudo isso.
A cultura da saúde mental, promovida pelos homens, precisa resgatar um alicerce essencial e vital para sua efetiva promoção: humanizar, com humildade, a escuta e o acolhimento de pessoas sofredores, sem estabelecer uma batalha alucinante de poderes e de competições sobre códigos. Recebemos, deveríamos acolher, e tratamos pessoas, não nossas arrogâncias e vislumbres. Precisamos ter claro que o terceiro milênio é pautado por prejuízos importantes sobre a qualidade de vida individual e coletiva das pessoas, frustrações se repetem e a insatisfação toma conta da dinâmica funcional de diferentes indivíduos e grupos. Esse é o fato e sobre essa condição é que devemos, todos, doutos e empíricos, atuarmos para reestabelecer a motivação e a felicidade sobre o fenômeno vida. Porém, isso não é apenas um papel clínico, isso é um dever social, afinal, certos ou equivocados, é o desejo de todas as pessoas.
Infelizmente, a doença de maior estatística que participa do processo comunitário, é a certeza, inquestionável e indubitável, de que se sabe e, pior, que essa convicção é aplicada e deve ser verdadeira para todas as demais formas de vida, diferentes, que participam das relações humanas. Esse funcionamento pertence aos doutos, que se escondem atrás de seus títulos, assim como dos empíricos, que transforma a inteligência artificial e as redes sociais em um moderno Liceu socrático. Isso aponta par ao fato de que não falamos de verdades, mas de egos. O fato verdadeiro e único está na constatação, e essa constatação pertence única e exclusivamente a cada indivíduo. A ciência evidenciada em fatos passa, obrigatoriamente, pelo reconhecimento da necessidade potencial de cada ser e não pela necessidade e soberba de imposição de diferentes pessoas.
Precisamos abandonar a cultura das tendências e guerras em saúde mental e passarmos a adotar a solidez sobre uma trendy que é pessoal e intransferível: o ser humano.
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