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Reflexões sobre a condição autista tardia

Nem Tudo que é Normal é Saudável

Essa afirmação foi assimilada por mim através das palavras de um grande Mestre que contribuiu para a minha formação profissional enquanto psicólogo. Elso Pinto, Professor de Psicopatologia, repetia, recorrentemente, essa máxima, sempre que apontava algumas das características comportamentais e emocionais percebidas na sociedade. Hoje eu acredito valer muito a pena resgatar essa reflexão e ponderarmos. Normalizar é uma ação que dá acordo e estabelece uma nova regra que passa a dirigir e determinar novos padrões, agora, socialmente aceitas.

Confesso que em um primeiro momento, fiquei reflexivo e surpreendido com essa verdade, apesar de assustado. Entretanto, impregnei essas palavras e as guardei para me acompanharem ao longo dessa jornada humana e profissional. Através desses pensamentos passei a caminhar e a refletir sobre a vida, a normatização das coisas e a saúde.

Esse mesmo sábio que me formou afirmava que saúde mental era medida pela coerência entre aquilo que se pensa com aquilo que se faz. Essa segunda informação potencializou minhas observações e análises e, confesso, que muito jovem, um tumulto iniciou a ser provocado em minha cabeça. Mesmo assim, fazia sentido e isso passei a verificar na conduta das pessoas. Ainda quando era obrigado a frequentar os eventos da igreja, percebia as pessoas, bocejando, muitas vezes dormindo ou observando o que os outros vestiam enquanto o padre rezava a missa. Uma postura nada motivadora diante do tamanho e da magnitude proposta a esses seguidores. O mesmo padre que rezava, estava sempre alcoolizado e a parte mais interessante da missa para ele era o momento de consumir o vinho na comunhão. Mas tudo isso não era nada! O que mais me abismava era uma cultuação de valores com reações absolutamente opostas dos seguidores, que falavam mal dos outros ou faziam coisas nada valorativa ou humanas.

Igualmente, passei a perceber a incoerência entre a preocupação de pais e pessoas adultas em relação aos jovens, onde esses eram permitidos saírem todos os dias no final de semana, retornando no início da manhã, alcoolizados ou tendo consumido algum outro tipo de drogas. Presenciei várias vezes esses mesmos adultos dando a espuminha da cerveja para seus filhos ainda pequenos. E esse olhar foi só expandindo, pude perceber o quanto as pessoas se dedicavam ao trabalho, deixando de lado suas vidas pessoais e possíveis lazer para poderem construir uma vida melhor, sendo que essa melhora jamais era usufruída e apenas de colecionavam mais horas e responsabilidades para crescerem e expandirem financeira e materialmente, em detrimento das escolhas que faziam como o exercício de paternidade e maternidade. Claro que a opção de constituírem família, formalizarem uma vida a dois, supostamente amorosa, era caótica. Tantas traições e vidas paralelas que chegavam ao meu conhecimento, não apenas de pessoas próximas, mas de um grupo predominante de pessoa que se intitulavam apaixonadas, mas que se permitiam serem seduzidas pelos fascínios da vida.

O que mais me chamava à atenção era a busca por uma construção frenética de coisas, status e solidez material e, mesmo conquistadas, eram a causa principal de suas reclamações e desregulações, tirando o fato de que presenciei, raramente, pessoas usufruindo de verdade daquilo que as afastou de uma vida mais harmonizadas e plena diante de suas escolhas. E assim vim vivendo, alcançando a naturalidade incoerente que consolidava a doença mental de indivíduos e da sociedade.

Passei a tratar diferentes transtornos mentais provocados por essas situações. Pessoas que mantinham uma ansiedade elevada, humor alterado, entre outras, em virtude das frustrações com o próprio estilo de vida e, fundamentalmente, pelas escolhas feitas. Afinal, não existem problemas, existem escolhas. Ouvi de milhares de pessoas que não sabiam o porquê que se casaram, muito menos qual seria o motivo que se mantinham unidas. Homens e mulheres arrependidos de terem filhos e, da mesma forma, sem saberem a razão pe4la qual os tiveram. Pessoas cansadas de tanto trabalhar e sem conseguir definir o motivo de fazerem isso com tanta intensidade, que não conseguiam ter tempo para usufruírem o mínimo sobre uma vida de lazer e diversão.  Enfim, compartilhei, diariamente, não apenas escolhas equivocadas, mas a manutenção de dinâmicas de vida sem sentido e sem propósitos, com um desejo árduo para a mudança, porém, sem nenhum, ou pouca iniciativa, para a alteração desses estados.

Talvez a maior incoerência e pior escolha que venho acompanhando é sobre a competição e a rivalidade estabelecida entre as pessoas, desde as mais próximas, até as mais distantes. Mesmo desejando aproximações e contatos harmônicos e estáveis, impõe-se o atrito em virtude das divergências, gerando intolerância, verdades, falsas, absolutas e um prejuízo significativo para a aproximação, interação e manutenção das relações sociais. Aliás, é difícil se falar e obter esse processo quando, individualmente, esse êxito não existe.

          Repetidamente, por cinquenta e três anos, vivencio e presencio isso, como tenho certeza de que muitos que leem esse texto, também. Logo, constata-se que o normal se consolidou como um novo padrão, contudo, nem tudo que é normal é saudável, principalmente pelo fato de essa normalização se estrutura em virtude do alto poder de incoerência sobre as escolhas das pessoas e da sociedade como um todo. Talvez tenhamos que pensar um pouco mais e, definitivamente, buscar um processo de modificação mais coerente e, efetivamente, saudável.

Uma resposta a “Nem Tudo que é Normal é Saudável”

  1. Avatar de Adriana Fausta
    Adriana Fausta

    Boa reflexão, assim segue a humanidade nesse caos direcionados pela mídias e chamadas de gados rumo ao abatedouro da loucura.

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