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Reflexões sobre a condição autista tardia

Plasticidade: Do Engessamento Mental ao Sentimento Nocivo

Plasticidade: Do Engessamento Mental ao Sentimento Nocivo

            A ciência da Psicologia estuda e desenvolve métodos para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. A ressignificação daquilo que é percebido e pensado, conduz a adoção de um novo afeto sobre os fatos e, respectivamente, para a adoção de um novo comportamento. Sente-se e se reage, diferentemente, sobre um mesmo episódio, promovendo um outro resultado. Há um ajuste, moldam-se elementos e o encaixe sobre o conflito ou desconforto, talvez, até mesmo, um engano, altera-se qualitativamente. Isso é um tipo de plasticidade: a subjetividade que soma, elimina ou substitui componentes, desdobrando-se a uma nova direção ou estado. As diferentes linhas psicoterápicas consolidam instrumentos meios para conduzirem diferentes indivíduos que, situacionalmente, não conseguem externar suas habilidades para alcançarem esse tipo de mudança. Existem outras formas aplicadas para esse mesmo intento, porém, abordarei a que experimento ao longo de quase três décadas.

            A tríade perceber, pensar e reagir está em funcionamento ininterruptamente, mesmo que o nível de consciência esteja reduzido, como no caso do sono. Relacionamo-nos com novos estímulos, estabelecemos conexões por associação e nos aproximamos, por semelhança, de situações repetitivas. É esse ciclo que permite o aprendizado, a fixação e análise dos elementos de convívio e sua somatória dá a alternativa para solucionar problemas, fazendo uso efetivo da inteligência.  O processo de evolução humana foi marcado por um extenso intervalo de novos estímulos e aprendizados, desde as habilidades motoras, à criação de ferramentas, à socialização, à construção da linguagem, à implementação da agricultura, à política e a instituição de diferentes poderes, além de um leque de competências adquiridas. Gradativamente, o novo foi se estabilizando, evoluindo em surtos, e o que se angariou passou a ser aperfeiçoado continuamente. O terceiro milênio tem uma marca significativa de aprofundamento. Observe o que foi o telégrafo para os atuais meios de comunicação, por exemplo. Todo esse contexto é cognitivo, contínuo, num mesmo traçado e alicerçado em pilares que sustentam o funcionamento mental.

            Universalmente, acordamos em horários parecidos, nossa higiene tem padrões corretos, a alimentação se dá em intervalos exatos. A carga horária de trabalho, com variações, segue um mesmo tempo e transcorre na maioria das etnias ao longo dia. A rotina do entretenimento é a TV, alguns passeios isolados, encontros familiares, eventos religiosos ou populares sem grande requinte intelectual, tornamo-nos competitivos, visando o outro como nosso rival e isso é algo estabelecido, socialmente aceito. Doutrinamos as crianças desde pequenas para isso, permanecendo anos na escola, depois nas faculdades e o resto de suas vidas com algum tipo de trabalho. O modelo monogâmico predomina, o casamento ainda é uma estrutura dominante e a insatisfação humana recorrente. Esse modelo é secular.  Creio que boa parte das pessoas que estão lendo essas afirmações se identificam com alguma coisa.

            Formalizamos uma sociedade obsessiva-compulsiva. Somos dominados por pensamentos recorrentes, conduzidos pela ordem sócio valorativa, a do senso comum, estimulando com isso os níveis de ansiedade, afinal, precisamos ser vigilantes e controladores para atendermos as expectativas alheias e gerarmos uma série de comportamentos recorrentes, como os citados acima para dar sustentação aos paradigmas, a reatividade  –  manifestação emocional espontânea  –   e às crenças que então regem o modelo operacional de cada indivíduo e usina a resposta mecânica dos grupos sociais.

            Geramos a semântica.

            Anterior a percepção, as sensações nos conduziram através da vida primitiva. A repetição gerou então a percepção e a concomitante necessidade para entender o que a vida apresentava aos processos relacionais. Assim, o raio passou a ter a identidade de ameaça, o roubo de um alimento, por um animal maior, a frustração ou a raiva. O fogo, a surpresa, assim como o canto de um pássaro, alento. Assim, tudo o que era vivo, começou a receber um significado, consolidar uma identidade e o efetivo estabelecimento de normativas. O aprendizado rudimentar que fora passado para as novas gerações que se sucediam, pelo método não verbal, até a elaboração da linguagem. Logo, a semântica precede a formalização da linguagem. A partir daí o verbal e o escrito passaram a propagar os símbolos humanos, padronizando o devir do fenômeno vida sobre a ótica da conveniência humana.

            Onde entra a dinâmica paradoxal?

            A Psicopatologia revela que a saúde mental se baseia na coerência: executa-se o comportamento conforme aquilo que é pensado. Indistintamente, cada sujeito produz seu próprio pensamento, mesmo que com similaridades. O conteúdo desse pensamento é um produto daquilo que se deseja, condição ímpar do indivíduo, em associação às obrigações que surgem na rotina. O padrão, sendo coletivo, sobrepõe-se ao desejo pessoal, robotizando em vezes a resposta comportamental. As racionalizações emergem para justificar esse desprazer parcial e ornar a resposta afetiva por compensações ou substituições e devido a esse mecanismo, vamos semeando as crenças que, insanamente, defendemos como verdades para a defesa do Ego. O paradoxo está em fazer o que muitas vezes não queremos. Quantas queixas desfavoráveis por precisar acordar cedo, por trabalhar muito, por ter vontade de fazer coisas diferentes, sair das telas da TV, por não conseguir justificar a razão por se ter filho, nem por ter casado, muito menos por estar mantendo esse mesmo casamento. Queixas ouvidas por três décadas como profissional e por quase cinco como ser humano. O paradoxo está m querer algo e fazer diferente.

            Esse padrão condicionado leva a um enrijecimento, engessamento mesmo, das atitudes e sentimentos sócio valorativos, reduzindo assim todo o conjunto de habilidades mentais que não se potencializam por se manterem estagnadas na mesmice, na repetição, em verdade, dentro da concepção grega, um ostracismo que isola e pune ao mesmo tempo. O maior de todos os castigos é não dar a devida plasticidade à mente. Vale salientar que plasticidade não se restringe a compensação funcional da estrutura neurológica. Essa versão é a mais popular. Plasticidade é, igualmente, a competência para ampliar e modificar padrões, agregar ou retirar hábitos. É dar funcionalidade qualitativa àquilo que é utilizado de maneira ruim ou parcialmente.

A Mente Engessada

            Separar a mudança comportamental e afetiva da eficácia sináptica seria um grave equívoco. Independentemente de uma definição qualitativa, o bloco de respostas oferecido pela humanidade nesse terceiro milênio é expresso pela estrutura e o funcionamento anatômico e fisiológico do Sistema Nervoso. A suposta normalidade, socialmente aceita, padronizou-se através das redes neuronais, das estruturas encefálicas e medulares. E progredimos em uma progressão aritmética (PA) incalculável. Essa ascensão teve como fonte alguns padrões diferenciados, com combinações associadas que se desdobravam em outras direções, porém, dentro de um enredo similar. Aperfeiçoamos a linguagem, o domínio do fogo, a criação de ferramentas, a organização comunitária, o estado bípede e a capacidade para resolver problemas. Antropologicamente, estamos caminhando com a ponta de um fio de novelo. Não há dúvidas de que a repetição é um marco em nosso desenvolvimento. Mantemos hoje comportamentos de séculos atrás, como ainda respondemos primitivamente a várias coisas.

            Positivamente isso nos levou ao aprendizado. Os corpos dos neurônios, a substância cinzenta se ampliou, as regiões do córtex e subcorticais se ampliaram e a internalização de informação e conhecimento foi arquivada em regiões específicas e de maior habilidade no encéfalo. A hiperestimulação por semelhança, presssupostamente, potencializou o mecanismo neurológico da singularidade das estruturas assim como o da lateralidade das respostas. As pesquisas relacionadas ao efeito da música no cérebro estão mostrando as possibilidades de alternatividade e até a capacidade para a bilateralidade de resposta dos hemisférios. A população pesquisada, centrada em diagnósticos funcionais de músicos profissionais, amadores, simples ouvintes e lesionados neurológicos, estão conseguindo quebrar alguns paradigmas importantes acerca das novas aquisições.

            Pressupõe-se que o Sistema Nervoso pode agregar um novo padrão de resposta. Logo, a possibilidade para assumir funções diferentes, existe. Por essa razão, é indispensável o questionamento científico relacionado ao impacto da música para o desenvolvimento emocional humano. Não me refiro a um estado de espírito, situacional, refiro-me a uma alteração de condição. Justifica-se a indagação visto que a rigidez que a semântica provocou à vida humana, no que concerne a produção paradoxal de pensamentos e atitudes impostas pelo indivíduo a si e aos grupos, desdobra-se em conflitos existenciais e interacionais, a fomentação de mecanismos de defesa, a proliferação de sintomas e as respectivas pandemias de transtornos mentais, como por exemplo os de humor e de ansiedade. O paradoxo altera as funções mentais e isso pode alicerça a semiologia da psicopatologia.  Tais afirmações são verificadas diariamente no exercício clínico da saúde mental.

            Apesar de a música ser um idioma e sua estruturação aproximar-se dos componentes ortográficos e dos princípios matemáticos e físicos, sua semântica não pertence ao conjunto semântico clássico, onde definições e ideias dão corpo a tudo que se coloca em comum. O fenômeno acústico produzido pela música é interpretativo, estimulando os elementos da realidade interna de cada um de nós. A racionalidade é minimizada, quando comparada com a linguagem, dando projeção a uma participação significativa da afetividade. O sistema límbico assume o papel principal e isso pode oferecer uma condição maior para a manifestação de diferentes reações e o desenvolvimento de módulos emocionais não conectados ou pouco estimulados.

“First, studies of the brains of musicians continue to address fundamental questions about the neurocognitive basis of music (or commonality with other cognitive processes), and more generally the role of a specific experience on the human brain. The development of brain imaging techniques promises new insights to the brain organization of both musical experts and learning students. Finally, the possibility of using music as a therapeutic tool for children struggling with learning difficulties opens fascinating avenues at the intersection of neuroscience, musicology, and pedagogy.”

Quando a música, dentro de um protocolo terapêutico, desenvolve a comunicação verbal e a audição em paciente afásico, sequelados de AVC Isquêmico, não poderia também contribuir com o refinamento emocional de indivíduos afetados em aspectos psicopatológicos? Sendo o cérebro plástico, a resposta é sim. Há um caminho a ser seguido.

Referências

ARENDT. Hannah. A Origem do Totalitarismo. São Paulo, Companhia das Letras, 1988.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais.       Porto Alegre, Artes Médicas, 2000.

HABIB, Michel, BESSON, Mireille. What do Music and Musical Experience Teach us About Brain Plasticity. University  of California, 2009.

NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal. São Paulo, Martin Claret, 2002.

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