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Reflexões sobre a condição autista tardia

Para Qualquer Pessoa que Encha o Saco de Lixo, Há Alguém que o Recolhe

Relato uma ação rotineira dentro da nossa sociedade. Produzimos diariamente uma grande quantidade de lixo e a alocamos em sacos plásticos. Concomitantemente, encontramos diversos profissionais da coleta passando em nossas casas e recolhendo esses resíduos para os despejarem nos devidos locais. Agora, o que essa padronização social tem a ver com a individualidade e a vida comunitária? Vamos à analogia.

Ética e saudavelmente, deveríamos repassar nosso lixo de maneira diferente, separando o material orgânico dos recicláveis e, acima de tudo, jamais colocar em risco a vida dos coletores com objetos ou substâncias ameaçadoras. Entretanto, não é isso que se testemunha no dia a dia das grandes cidades. O lixo é simplesmente produzido e jogado para que, obrigatoriamente, um desconhecido cumpra com sua obrigação. Vamos além disso, produzimos uma quantidade de lixo absolutamente desnecessária, porque consumimos de maneira desmedida e jogamos fora muitas coisas que não participam de maneira efetiva do nosso consumo e desperdiçamos. Isso é verificado na quantidade exorbitante de alimentos anulados por nossa gula e que alimentaria uma quantidade imensurável de seres que passam fome.

Individualmente, cada um de nós produz seus lixos emocionais, valorativos, morais, sociais, políticos e éticos, afinal, somos seres em movimento e que se relacionam. Cada um de nós carrega consigo uma produção natural de resíduos no dia a dia: cansaço, alegria, motivação, desinteresse, frustração e assim por diante. Isso é natural e saudável, diga-se de passagem. A potencialização do perfil soberano humano nos fez refinar em demasia essas características intrínsecas do bem-viver. Passamos a produzir a competitividade, a rivalidade, o egoísmo, o poder e a supremacia de uns sobre os outros. Transformamos frustrações e ambições de vingança e derrotas em princípios de lutas e aniquilamentos para apaziguarmos os ânimos do nosso ego. Alcançamos um requinte tão exacerbado de produção de sentimentos inferiores, lixos emocionais, que passamos a construir convicções sólidas que alteram as definições de bem e mal, saudável e não saudável e que nos induz a crer que a verdade pessoal é soberana e que ou os outros a seguem ou os delatamos dessa incerta certeza que divinizamos como fontes orientadoras, absolutas, para nossas vidas. Igualmente, não há preocupação como que se coloca nesses sacos, se ferimos, afrontamos, desqualificamos ou arruinamos outro, simplesmente, descartamos. Em síntese, foda-se você e não me atrapalhe ainda mais.

Como pessoas, acabamos sendo os fiéis depositários dessa quantidade incalculável de resíduos tóxicos que produzimos e chamamos de valores e de moral. A outra parte é despachada sobre aqueles que sãs vítimas diretas do nosso descarte emocional e, finalmente, o que sobra é dissipada e somada em um grande aterro de sentimentos que se padronizam como naturais dentro da sociedade. Conduzimo-nos em uma dinâmica onde o que difere, critica, enfrenta e busca a essência de si é afastado, colocado de lado e por final lançado em terrenos ermos, solitários e abandonados, os aterros sentimentais da pessoa, dos grupos e da grande sociedade. Formamos acúmulos de detritos gigantescos e, da mesma forma que os aterros sanitários, não damos conta de dar vazão e criamos problemas públicos e pessoais que se multiplicam.

O que é fato: para nosso bem-estar e equilíbrio, precisamos nos desfazer das contradições e dos conflitos. Precisamos eliminar o lixo que nos impede de crescer. Entretanto, é necessário ressignificar de maneira intensa e criteriosa, a qualidade e a forma dos sentimentos que produzimos e que projetamos sobre nós, os outros e o espaço que ocupamos. Isso nos dará coerência, alicerce fundamental para uma saúde mental verdadeira. Vivemos em uma sociedade absolutamente incoerente, onde pensamos algo e fazemos coisas opostamente diferentes. Desejamos arduamente, mas muito pouco fazemos pelo desejo daqueles que nos são pares. Ambicionamos a liberdade, encarcerando a todos com nossas falsas verdade. E assim vamos depositando cacos de vidro, substâncias corrosivas e tóxicas nos lixos que espalhamos pelo mundo que habitamos. Isso nos leva a criar e a desenvolver um espaço pessoal, familiar e social com perfil predominantemente marcado pelo cenário dos aterros sanitários. Mesmo assim, queremos flores, pássaros cantando, cachoeiras com água límpida. A tal da incoerência.

O que me preocupa: o mesmo descaso que se tem com a produção de lixo nas comunidades, é aplicado à contaminação que produzimos em nossas vidas pessoais e coletivas. Sim! As pessoas querem soluções e alterações mágicas, porém, muito pouco fazem para transformar sua realidade. Mais uma vez, a tal incoerência.

Enquanto isso, vamos enrolando o palheirinho e observando os urubus sobrevoando a paisagem no lugar das gaivotas almejadas.

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