Caríssima escola, estou com dificuldade para organizar meus pensamentos e, principalmente, meu afeto para falar sobre você, entretanto, sinto-me na obrigação de dirigir minhas percepções a vossa senhoria.
Minha relação com sua estrutura foi sempre pautada por um paradoxo enlouquecedor, confesso. Consegui enxergar que sempre carregou consigo aquilo que mais me encantou nessa trajetória de vida: conhecimento. Reitero que saber me mantém embriagado e sedento por cada vez mais suprir minha ignorância, as necessidades de descoberta, enfim, poder alcançar uma percepção multifacetada sobre o fenômeno vida que se perpetua por séculos em nossa história. Ao mesmo tempo, sua forma de repassar essas informações, e, acima disso, a maneira que se dispõe a construir a beleza do conhecimento, irritavam, faziam-me odiar te frequentar, gerando um sofrimento repetitivo, ano após ano. Tentei o caminho do meio, como diriam os sábios orientais, retirando da escola a responsabilidade de me formar e fui buscar nos livros e, principalmente, na vida, um oásis para ter a plenitude que me faltava. Eu me divorciei de ti, de forma amigável, fazendo de conta que sabia, através das provas sem sentido que me aplicavam e, em contrapartida, sendo aprovado para concluir o que chamam de educação básica. Um eufemismo brilhante para a miserabilidade que dão em troca por serem doutos do saber. Enfim, participei, envolvi-me, mas, jamais me comprometi com esse sistema.
É hilário, porém, a vida realmente dá voltas e, obrigatoriamente, por lei mesmo, tive a necessidade de me reaproximar e reestabelecer meus laços contigo. Meus quatro filhos, assim como eu, obrigatoriamente, tiveram que ir para a escola e realizarem a mesma caminhada a qual passei por mais de uma década. Vejam que a vingança é um remédio realmente amargo. Cada um deles, já em seus primeiros tempos de convivência contigo instituição do suposto saber, passaram pela vexatória experiência de colocar os feijões no algodão para feder. Deparando-me com isso, conclui, com veemência, que nada havia sido modificado e que o saber se mantinha engessado, mumificado, sem a chance de eclodir e se expandir com as novas gerações que chegavam, como até hoje não se manifestou nas que estão por vir.
Fiz uso do que havia vivido e tentei fazer daquelas horas diárias, um cenário dramatizado como o foi em A Vida é Bela. Lemos muito, estudamos as razões dos estilos de artes, ouvimos músicas com arranjos elaborados, produzimos algumas artes e buscamos entender a história não apenas por narrativas, mas por sua construção de causa e efeito. Eu os ensinei a lerem nas aulas sem sentido, a corrigirem erros gramaticais produzidos por seus próprios professores e para desopilar, matamos algumas aulas juntos com a finalidade de conhecermos as belezas oferecidas pela vida. Tudo no mais absoluto respeito e consciência do como sobreviver a você. Todos os meus filhos passaram por isso e estão formados hoje. Lamento informar, mas isso foi necessário, afinal, se eu tivesse netos hoje, os coitadinhos ainda estariam colocando aqueles feijões para feder.
Com tudo isso, quero afirmar, categoricamente, que seu valor Escola é imensurável, porém, essa riqueza vem se perdendo abruptamente pelo comportamento repetitivo e recorrente de reproduzir mais do que fazer pensar, de gerar uma desmotivação descomunal em crianças e adolescentes em relação a paixão ao saber, em virtude de sua postura arcaica, insólita e sem uma revisão séria e profunda sobre a maneira em aplicar a arte de ensinar. Tenho consciência de que muitas tarefas foram agregadas e novos desafios surgiram, principalmente nesses últimos anos, contudo, não está nisso seu maior obstáculo, afinal, majoritariamente, falamos de um cenário e de personagens que se mantêm os mesmos e esses são tão afetados como aqueles que merecem um olhar individualizado.
É preciso disseminar o fato de que, a consciência sobre aquilo que se sabe deve ser ainda maior do que o amor ao saber, propriamente dito. E isso se dá pela obra, não construção, da compreensão sobre o anelamento dos fatos, a lógica das fórmulas e a aplicação das experiências teóricas, através de um método compatível com as ansiedades do terceiro milênio e, obviamente, resgatando-se princípios essenciais que se perderam desde os primórdios socráticos. Para isso se dar, faz-se, imprescindivelmente, o resgate vital da paixão pelo ensinar, ouvindo o sujeito que ensina, valorizando esse ser que deve representar a primazia da existência humana, o Professor. Anular toda e qualquer possibilidade de uma ação secundária, ou seja, bico, e transformá-la na grande redenção para qualquer exercício profissional.
Creio que dessa forma, formaremos um contingente gigantesco de pessoas que terão prazer da leitura, anularemos o analfabetismo funcional e que passaremos a pensar, espontaneamente, sobre a vida. Muito além disso, só assim, lapidaremos os valores pessoais e coletivos e construiremos uma sociedade que não seja guiada pelo achismo de falsos intelectuais que se propagam no mundo virtual, trazendo de volta a capacidade de crítica sobre tantos pensamentos que contribuíram e necessitam serem ampliados.
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