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Reflexões sobre a condição autista tardia

Vale Tudo?! Do Pragmatismo de Odete Roitman à Ausência de               Evidências Relacionadas à Vó Morta

A ação de conviver em sociedade, não deveria, ao menos se pressupõe, haver a inexistência de limites ou a presunção de que tudo possa vir a acontecer. Contudo, infelizmente, não é isso que se verifica em nosso dia a dia. Somos repetidamente informados sobre genocídios recorrentes, multidões que desencarnam pele fome, um outro tanto que padece e desfalece sem a oportunidade de alcançar recursos básicos de saúde, desrespeito sobre diferentes grupos definidos como minoritários entre outros. O que mais gera espanto não é assistirmos a tudo isso passivamente, mas, sim, constatar outros grupos que desdenham e até conseguem justificar esse mal viver da civilização, motivada pela própria sociedade.

Mesmo assim, muitos argumentam que esse cenário é global, situado em um tempo e espaço que poucos conseguem acessar e que apenas pertencem à realidade de grandes líderes. Descordo, isso é cultural e antropológico. Essa mesma insanidade é igualmente percebida nos terrenos baldios que circundam as nossas casas, visualizadas e exercidas por indivíduos e pequenos grupos. O desrespeito visita famílias, grupos de trabalho, congregações sociais. Julgamos o faminto e não oferecemos a ele um prato de comida. Desqualificamos e invalidamos grupos característicos que fogem ao senso comum. Temos o conhecimento de doenças sobre pessoa que não podem se tratar e afirmamos, com soberba, que um empreguinho já resolveria suas vidas, lavando, indecentemente nossas mãos. Revestimo-nos do orgulho, criamos armaduras racionais e assim permitimos que a vida se escoe pelo ralo. Detalhe, negligenciamos a vida do outro em detrimento de nossas verdades.  

Essa dinâmica gera dor e sofrimento, muito pouco compreendido e quase nada sentido pelo coletivo, visto que, pautados pelo egoísmo, centramos de maneira absoluta em nossas dificuldades e obstáculos, gerando nossas tragédias próprias, soberanas a toda e qualquer outra realidade, mesmo que mais difícil do que aquela que se vive. E assim, o tribunal inquisitivo atua, ostensivamente, classificando o que de fato faz sofre, o que é verdadeiro e aquele que merece ser acolhido e aninhado para acalanto de ditas chagas.

É preciso destacar, que a gravidade de um sofrimento não apode ser mensurado, não temos uma régua, um copo ou qualquer outra forma para gerar o peso, a quantidade, nem mesmo o impacto da dor que fulano ou beltrano vive. Sendo assim, cartesianamente, julgamos, de acordo com nossos valores. É preciso entender que a o impacto de um sofrimento está proporcionalmente ligado ao conjunto de experiências vividas pelas pessoas, seu contexto cultural, o desenvolvimento de seus processos emocionais, as situações de vulnerabilidade vivenciados e a genética que dá formação única e exclusiva para cada um. Ou seja, o desencarne de um ente querido não tem o mesmo peso para João quando em comparação a Maria. Falamos de vidas e realidade diferentes.

Mesmo assim, travamos batalhas pautadas em verdades, conflitamos e produzimos atritos importantes dentro de uma competição sem sentido. Incorporamos a persona Odete Roitman para um emponderamento desmedido, fazendo dessa personagem, por incrível que pareça, um símbolo de admiração de parte importante da população. Ela se transformou no sonho de consumo para o ser de tantos telespectadores, sendo que tantos se identificam ao olhar no espelho das telas que frequenta.  

Por vezes, acovardamo-nos na busca de nossa identidade e desejo, submetemo-nos e passivamente vamos reproduzindo a intenção do outro para vivermos algumas migalhas de pertencimento e sensação de estarmos aceitos e inclusos nos grupos do senso comum. Em outros instantes, frustrados, combatemos aos outros que são tidos como menores e que vivenciam, simplesmente, o que de fato querem e almejam. O conflito entre o certo e o errado, novas terminologias absolutamente subjetivas que se engessam como paradigmas intransponíveis e, obrigatoriamente, tendo que ser seguidos.

Um vale tudo que se mantém pelo tempo em que nossas forças não se esgotam, porque sim, não conseguimos nos manter, incessantemente, em armaduras de força, desbravando e lutando sem instantes onde a fraqueza toma conta, caímos e nos fragilizamos. É inevitável. Porém, ainda em uma situação desfavorável, buscamos omitir e afastar a nossa responsabilidade aplicada ao mal-estar da civilização. Incansavelmente buscamos nos eximir da culpa em relação as nossas escolhas e jogamos ao universo as causas para tantos acontecimentos. Um pragmatismo que defende a tese de que foi sem intenção, sem desejar, sem pensar associado a milhões de perdões para se reestabelecer uma normalidade nem sempre saudável. E aí entra a vó morta.

A vó morta é um ícone da delegação de responsabilidades. Quando ninguém fez, tenham a certeza de que apenas essa senhora teve a capacidade para realizar. E assim, elegemos um CEO responsável par anão comprometer o desejo incoerente em promover o bem-estar dessa civilização.

Na realidade, somos cada um, os únicos responsáveis pelos nossos processos e, vivenciar o bom é fantástico, mas reconhecer nossas inabilidades e erros, um bálsamo, pois somente dessa maneira alcançaremos algum tipo de desenvolvimento e evolução verdadeira. Sem delegações, acusações e imposições, mas, tão somente, permitindo com que a vida de cada um, individualmente, com suas características, prazeres e sofrimentos, preencham, verdadeiramente, esse baile de máscaras se constrói ao redor do fenômeno vida.

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