naofoiontem

Reflexões sobre a condição autista tardia

Felicidade

Pensei muito sobre a felicidade. A vontade incansável que todo e qualquer ser humano tem para alcançá-la. O amplo movimento realizado para que se consiga, no mínimo, algum tipo de ligação com esse estado sublime e harmonioso. Chama-me muito à atenção o fato de que tantas vezes essa tão desejada condição encontra-se lá, talvez distante, ou, ainda mais próximo do que nossa própria imaginação suponha. Em contrapartida, não vivendo as delícias relacionadas às sensações de participar com ela, o domínio que a não felicidade faz ao longo do intercurso da procura que se faz, passo a passo, para saboreá-la.

            O que define a felicidade encontra-se no mesmo princípio que conceitua o belo e o feio, a verdade e a mentira. Os alicerces que compõe esse estado ao espírito encontram-se no mundo interno de cada uma das almas. Isso é tão verdadeiro, que não conseguimos localizar alguém que seja, feliz por nós, pelo nosso eu, pela nossa personalidade. O outro, simplesmente tem a capacidade de compartilhar e brindar com cada que seja, a tão desejada conquista. A forma de perceber o mundo, a maneira de processar cada estímulo no pensamento determinam a maneira e o conteúdo de nossas reações, as vigas para a alegria ou a tristeza.

            A felicidade não está presente na coisa desejada, tão pouco nas pessoas que nos cercam ou desejaríamos que nos cercassem. É um estado de espírito altamente contagioso, que se prolifera da mesma maneira que o vírus mais potente, ou, permanece encubado, desesperado a espera de uma oportunidade para se manifestar. A forma como olho é que potencializa sua vibração e a faz eclodir, em nós e para o meio em que nos encontramos relacionando. A felicidade contamina primeiro o eu, derrubando todas as muralhas e as proteções pessoais, só assim passa a contaminar a vida em volta.

            A essa estimulação se faz necessária uma permissão de encontros. O meu eu precisa, obrigatoriamente, identificar as condições e o perfil da identidade que possui. Reconhecer seu potencial e sua condição para ação em todos os segmentos em que atua. Não se define o eu, espelhando-se no perfil dos que a nossa frente estão. Almejar ser como alguém, não nos faz ser essa pessoa. Essa retórica universal do ser humano o direciona a frustração, impulsionando suas habilidades e condições a uma busca cega, sem sentido e sem rumo. Deriva daí um estado de não felicidade, de angústia por não alcançar e distanciar do que de fato motiva.

            O saber sobre si, rabisca todas as retas e curvas que norteiam o mapa das precisões e das realizações de desejo de cada indivíduo. Só assim, o encontro consigo mesmo se faz ativo e presente, permitindo a cada um a constituição de pré-requisitos essenciais para a busca de similares perfis e situações, evocadas pela identificação, depois simpatia até chegar ao êxtase da internalização de múltiplas vidas e conceitos à sua própria, fomentando o que de bom e saudável é pertinente e agregando, com as diferenças presentes nas similaridades, uma nova maneira de olhar e de sentir tudo o que a vida oferece.

            Não existe segredo para a felicidade. Somente um enclausuramento provocado por uma insatisfação natural oriunda da característica involutiva que nos é peculiar que gera o ciúme dos supostos mais abastados e a inveja daqueles que ilusoriamente supõem-se ter. O orgulho inflama e o sentimento de menos valia nos faz perceber menores e menos capazes. Defendemo-nos, com unhas e dentes como se travássemos uma sangrenta batalha entre os egos e o desejo pessoal passa, então, a ser substituído pela ambição em querer ter a posse daquilo que o outro manifesta, ao menos se acredita nisso, a fim de completar as limitações existentes.

            É somente na concepção da oportunidade que a felicidade brota e mostra as pétalas dessa bela flor. O eu é essa possibilidade e tudo que o cerca, da mesma forma. Isso dá asas à criação, fazendo com que o mundo idealizado das ideias, restrita ao pensamento e a manifestação, muitas vezes, solitária, tenha vazão plena para tudo aquilo que se vive. Criar é uma alegria natural e componente aos quesitos dos homens. A infelicidade encontra-se nas vãs tentativas de copiar, imitar e buscar, ansiosamente, a conquista de modelos prontos, definidos como melhores que os próprios, para fazer a vestimenta de um número maior no menor, ou vice e versa. Não cabe, simplesmente.

Deixe um comentário

Navegação

Sobre

Autismo em Foco | Vozes que sentem
Reflexões, vivências e descobertas sobre o espectro autista — com ênfase no diagnóstico tardio.
💡 Informação com empatia
🤝 Conexão real
🧠 Neurodivergência em primeiro plano