do Aniversário dos Meus Filhos
Essa semana meus filhos, gêmeos, completaram 18 anos de vida. Para enaltecer ainda mais essa data, o irmão mais velho deles estava conosco para as comemorações. Estávamos reunidos, nós quatro, três gerações, personagens que ao longo dos anos constroem uma história, cada um com suas características, habilidades e necessidades de evolução. Confesso que fui tomado de alegria por poder perceber a caminhada de cada um deles e por eu ter sido o protagonista que iniciou todo esse enredo. Brinco com eles que a maior herança que já receberam em vida foi a minha genética. E aí que inicia a minha reflexão.
A algum tempo atrás eu também havia nascido, cresci e me desenvolvi. Já passei pela fase dos 18 anos, depois 28 e fui seguindo até os dias de hoje. Meu filho mais velho também já alcançou a maior idade e vem repetindo fases que eu vivenciei e da mesma maneira os gêmeos vão percorrendo momentos cronológicos semelhantes. O que nós quatro tempo em comum é o fato de estarmos na condição autista. Primeiramente, eu recebi essa carga genética e repassei aos demais. Confesso que meu gene é um espetáculo! Apesar desse aspecto que nos aproxima, traçamos histórias e caminhos diferentes.
Em 1972 jamais se imaginaria que eu estivesse na condição autista, mesmo com minhas inseguranças, meu desgosto pela escola, minha rigidez cognitiva e necessidades de suporte. Era definido apenas como uma criança fofa e que assim como todas as outras precisaria ser lançado à arena de lutas do grande coliseu da vida. Tipo assim, vai e te vira. E foi o que aconteceu. Passei décadas travando diferentes batalhas, em termos de intensidade e tamanho, conquistei muitas coisas e me transformei em uma pessoa de sucesso, entretanto, pagando um preço alto demais: sobrecargas sensoriais, sociais e afetivas recorrentes, crises de implosão, encapsulamentos e a permanência absoluta de uma máscara de ferro para poder sobreviver a tudo aquilo que me incomodava e fazia mal. Depois de muitas feridas e cicatrizes, venci. Descobri minha condição e me libertei.
Meu filho mais velho vivenciou uma trajetória semelhantes. Sem dúvida também era um fofo, mas por anos não sabíamos que estava na condição autista, no TDAH e na superdotação. Geneticamente, as mesmas condições do pai dele. Passou por sobrecargas, sofrimentos e uma crise existencial importante, porém, igualmente lutou e venceu, troando-se um homem maravilhoso e que também se libertou dessas amarras através de seu diagnóstico tardio. Tem meu bom humor, os mesmos interesses intelectuais e o simples fato de o verem parado as pessoas já perguntam para ele: “Você é o filho de Clécio né?!”.
Já os gêmeos as coisas foram mais ferrenhas. Lorenzo além da condição autista, nasceu com um AVC Isquêmico e é epilético. Sua irmã desde bebê apresentando sinais importantes de shutdown e meltdown, com hipóteses diagnósticas variadas para quadros neuropsiquiátricos. Em virtude disso, transformaram-se em peregrinos da área da saúde, passando por diferentes profissionais, com diferentes diagnósticos e planos de tratamento. Juro que daria para escrever uma daquelas mexicanas bem melodramáticas sobre essa história. Assim como eu e o João, meus gêmeos foram diagnosticados tardiamente. Mas eles tiveram o meu suporte e o da mãe, assim como do próprio irmão. E agora completam 18 anos.
Nossas reuniões familiares são um espetáculo: diferentes abafadores de ruídos, um cardápio vasto de rigidez cognitiva, uma amplidão de rotinas sistematizadas, minha esposa, meu nível de suporte Karim, que é TDAH, enlouquecendo algumas vezes e os nossos cinco anjos peludos rondando cada um para brincarem de neurodivergência. Tudo com muita alegria e amor e algumas pitadas de saiam de perto que eu preciso ficar sozinho.
Essa realidade doméstica acaba se chocando com afirmações, narrativas e argumentações, insustentáveis e recorrentes, sobre a impossibilidade da existência do autismo em adultos, ou, a respeito da não necessidade de suporte dos autistas adultos já que são definidos como pessoas que conseguiram fazer, que dão respostas devidas à sociedade e que se foda seu autismo. Em relação ao fato de o autismo em adultos não existir, dá para pensar em avisar aos meus filhos que agora, aos 18 anos, eles deixaram a condição, tipo jogador de futebol que é vendido para outro clube por uma fortuna. O problema é explicar o fato de deixarem de ser autistas e passarem a ser o quê?! Mas, ai caio na realidade: meus filhos não caíram de um meteorito na terra, não foram trocados na maternidade e nem podem ser filhos de outros pais. Por quê? Porque o mundo comprova que são feitos a imagem e semelhança dos Gomes, ou melhor dizendo, do pai deles. Logo, somos um exemplo vivo das comprovações científicas descritas em mais de 10.000 artigos científicos que comprovam a base genética do espectro. Resolvido um problema nessa reflexão.
Em relação a não necessidade de suporte, confrontada com nossas magnânimas habilidades, moral ilibada, valores saudáveis e fofura, sim, eu, Lorenzo, Betina e João precisamos sim de métodos diferentes e de auxílio em situações específicas para cada um. Caso contrário, talvez fôssemos um abacate maduro ao invés de pessoas na condição autista. Interessante que somos honestos e transparentes, assumindo, verdadeira e categoricamente, a necessidade desse suporte. Os filhos chamam sempre pela mamãe querida, ajustam processos na escola e na dinâmica doméstica. Já eu, gostaria de ter a camiseta com a frase “Se eu me perder chama meu nível de suporte Karim” e ela usando a sua com a frase “Eu sou o nível de suporte Karim”.
Sim, somos uma grande família, unidos e separados jamais. Temos consciência do quanto podemos oferecer e do quanto precisamos adequar formas para que essas habilidades possam ser externadas. Lutamos, juntos, pela qualidade de vida de outras pessoas na condição autista. Em resumo, temos dois neurônios amigos que interagem e mantém bom relacionamento, impedindo com que a falta de conhecimento, de respeito e a ausência de inteligência proferida por doutos sábios da desumanização, anulem o que de fato somos e sentimos. Mas minha reflexão vai um pouco além. Milhares de pessoas são atropeladas e devastadas pela imposição maléfica, ausente de veracidade que apenas anulam tantas famílias na condição autista e geram, com isso, uma epidemia de comorbidades, acabando com a qualidade de vida de tantos e gerando um impulso ao desviver de outros.
Esse aniversário nos fez perceber que renascemos a cada dia dentro da nossa casa e que precisamos, com toda essa linda história, contribuir para o renascimento de tantas outras pessoas que sofrem com o descaso descabido de uma sociedade que apenas luta por suas falsas verdade.
Deixe um comentário