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Reflexões sobre a condição autista tardia

O Duende da Bunda Vermelha, o Autismo e a Ciência

O tempo passa e acabo sendo tomado, recorrentemente, pelo espanto e um certo tipo de letargia em relação a comentários tão contundentes, impositivos e, acima de qualquer coisa, carregados de uma suposta veracidade sobre a negação às teorias científicas que pautam as bases dos transtornos do neurodesenvolvimento. Como sou uma pessoa na condição autista eu busco meu processo de evolução, continuamente, e parei para analisar esse amontoado de frases, afirmações e certezas, afinal, de contas, a rigidez cognitiva participa da minha dinâmica de funcionamento e me imponho flexibilizar.

          A primeira coisa que me passou pela cabeça é que tudo que li ao longo dos anos, representaria uma valia bem menor e inferior do que toda a sapiência construída nas redes sociais. Quem seria Kandel diante da sólida sabedoria empírica edificada nas redes sociais? Passei a considerar que meus olhos e cérebro interpretavam a linguagem dos livros e artigos lidos de uma maneira diabólica, sabotadora e que estaria sendo dominado por um espírito maligno para provocar a desinformação e uma destinação equivocada para tantos seguidores, avaliados, pacientes e familiares. Porém, em minha análise, verifiquei que outros como eu, testemunhavam informações semelhantes e que, de fato, não poderia ser esse o caminho. Afinal, outras pessoas tamb+em compartilhavam o mesmo conhecimento. E aí, minha mente ampliou sua capacidade de visão, percebendo que poderia estar em um caminho de redenção e de salvação. Poderia estar sendo salvo por algum tipo de energia pura e carregada de grandes vibrações, pois somos muitos. Claro! Eu e tantos outros poderíamos estar sendo manipulados e aprisionados em uma egrégora de conspiração contra o planeta, uma espécie de quadrilha transcendental de falsa sabedoria.

          Fiquei chocado com tal possibilidade!

          E minha mente criativa e com certa inteligência me levou a caminhos mais profundos e férteis sobre essa análise: Lembrei do Duende da Bunda Vermelha, aliás, esse ser praticamente tomou conta da minha alma, uma espécie de incorporação, poderíamos assim dizer. Para quem desconhece, o Duende da Bunda vermelha foi um personagem que criei para auxiliar meus filhos em suas dificuldades e inseguranças escolares, para conseguirem terem força e acreditarem em si quando avaliados ou expostos em situações de grupo. E o pequeno foi surpreendentemente perfeito! Perturbado por todos os comentários e evasivas que vinha lendo sobre o descrédito da ciência na participação da condição autista, fui avassalado por um questionamento que poderia encaixar todas as peças. O Duende da Bunda Vermelha existe de fato e é ele, com seu poder mágico que altera a condição estrutural neurológica de todas as pessoas na condição autista! Vibrei! Gritei com meus próprios pensamentos, está aí a raiz de anos de estudo, formações, congressos, debates, experiência clínica, o que busquei conhecer ao longo dos 18 anos de vida dos meus filhos e dos meus 53 anos de vida experimentando esse espectro.

          E o Duende para fazer tudo isso usa o mundo acadêmico, cientistas e clínicos para poder permanecer omisso, sem ser descoberto. Estava me sentindo um homem reborn, um profissional e pai reborn. Renasci através de um vasto campo de vazio intelectual produzido por uma estrutura que lê com restrições, produz informações por meios artificiais e eclodem em superioridade a todo um universo de meros humanos que acreditavam que, estudar poderia ser a melhor forma de estarem contribuindo para o mundo.  Quase sai rasgando meus diplomas, dando em adoção os filhos, afinal não poderiam mais seguirem suas vidas sob os cuidados desse membro da egrégora do mal e pensei em me candidatar a ser biruta em um posto de gasolina qualquer. Precisava alcançar uma dinâmica tipo samambaia para me punir, muito mais do que isso, para poder ter uma chance de me regenerar.

          Cheguei a ter cólica nas tripas diante desse conflito do que construí com o arcabouço repassado no universo virtual.

          Aí, para me despedir dessa vida de falsas informações que pautei a minha vida, resolvi pegar meu violino e tocar Think of me, tema do Fantasma da Ópera e adentrar a esse novo universo de solidez inteligente. A cada acorde, melodias se formando, musicalizando a poesia da composição, fui tomado por outros fatos. Não estava tocando algo da moda, muito menos um instrumento da moda. Lembrei dos meses que fiz uso da música para fazer meu filho, com diagnóstico de Afasia de Broca, falar. As estruturas em escalas musicais que desenvolvi. Minha emoção alcançou a lembrança das primeiras vogais, sílabas e palavras que ele falou e, então, acabei sendo inundado pela chatice de ele hoje falar sem parar e me tocar que talvez tenha exagerado em meus métodos criacionistas para resgatar sua fala.

          Eu me toquei, efetivamente, que não estou errado! Percebi que a ciência faz brilhar o bem-estar e a harmonia de todos. Incompleta e com um universo de coisas a serem descobertas, é o saber que nos estrutura e nos impulsiona a desejar saber cada vez mais e de, igualmente, buscar transformar aquilo que se sabe. Fundamentalmente, se meu filho hoje fala, está vivo é bem-humorado e feliz, após um AVC Isquêmico, ser uma pessoa na condição autista nível II de suporte e epilético, é porque eu o fiz crescer através do idioma prático que o amor ao conhecimento me permitiu aproximar, enamorar e vincular, até que a morte nos separe, daquilo que a ciência pode oferecer. E isso se desdobrou a todas as conquistas construídas com pacientes, familiares entre outros.

Garrei nojo do Duende da Bunda Vermelha, sussurrei em pensamento, vá tudo para a PQP e vamos continuar essa jornada, mesmo que insólita, solitária e desafiadora, pois esse é o caminho. Terminei de tocar a canção e fui ler outro artigo científico para comprovar a mim mesmo que “só sei que nada sei” (Sócrates, IV a.c).

2 respostas a “O Duende da Bunda Vermelha, o Autismo e a Ciência”

  1. Avatar de wombatalmostcf7d239a3c
    wombatalmostcf7d239a3c

    A “ciência do amor” só pode existir depois do “auto…”.
    Nesse auto… a ciência e o Duende da Bunda Vermelha trabalham juntos.

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  2. Avatar de sobuttery16deec42b5
    sobuttery16deec42b5

    Amei esse texto!!!

    Curtido por 1 pessoa

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Reflexões, vivências e descobertas sobre o espectro autista — com ênfase no diagnóstico tardio.
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