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Reflexões sobre a condição autista tardia

Sim! As Nuvens são Feitas de Algodão

Quando eu ouvi pela primeira vez o grupo Engenheiros do Hawaii cantando Somos Quem Podemos Ser, recitando em um de seus versos que “Um dia me dissera, que as nuvens não eram de algodão” isso me chocou, confesso que foi um dia muito marcante. Constatei, depois de algum tempo percebendo diferenças, que de fato havia algo errado sobre aquilo que olhava em relação a vida. Ao mesmo tempo, mantinha-me indignado, questionando-me, com veemência, o porquê que as nuvens não poderiam ser feitas de algodão.

          Eu tinha 16 anos nessa época. A partir desse instante pude constatar que havia em meu cérebro um algoritmo próprio que traduzia uma linguagem única e que rodava em um programa que não pertencia a mais ninguém. Passei a ter a consciência de que as pessoas a minha volta funcionavam e reproduziam coisas muito diferentes das minhas e, pior, carregadas de um ritmo, uma dinâmica e valor absolutamente opostos, quase que incompatíveis com a minha forma de compreender e interagir com o mundo. Aliás, ali pude notar as razões que me levavam a não participar tão efetivamente dos fenômenos relacionados à vida.

          Até então, era como se eu enxergasse as outras pessoas se nenhum tipo de linguagem que as traduzissem, fazendo-me sentir que éramos todos semelhantes, que caminhávamos em uma mesma direção e com os mesmos propósitos. Escrevo e tenho a sensação de que tudo está novamente acontecendo, agora, quase cinquenta anos depois. Havia uma convicção em minha alma que todos os algoritmos se assemelhavam e que reagíamos ao universo como uma grande orquestra que toca a mesma canção, na mesma nota e no mesmo ritmo. Era uma certeza bela que era agredida, mesmo que negada por mim, pela indiferença às minhas motivações, pela invalidação a minha forma de reagir e a estranheza que era notável sobre aqueles que conviviam comigo.

          Sim, não apenas acreditava, mas sentia, sendo tomado por uma certeza absurda, de que as nuvens eram feitas de algodão. Minha negação foi destruída quando Umberto Gessinger recitou em meus ouvidos a existência de um outro algoritmo, de um outro programa que funcionava sem eu saber de sua presença.

          O passar dos anos e a minha busca pela formação profissional me levaram aos conhecimentos relacionados à teoria da mente. Coincidentemente, recentemente, passei a reler o magnífico livro de Steven Mithen que aborda o desenvolvimento da mente desde a pré-história. Toda essa gama de informações me levou a ressignificar as nuvens que me acompanhavam. Fui um garoto na condição autista, sem saber disso, que não conseguia acessar aquilo que dizia a mente das demais pessoas. O tempo me fez evoluir, passei a sentir que ali havia algo para me dizer, mas não conseguia traduzir as informações para um idioma compreensível, para o meu idioma. Ou seja, passei de uma cegueira mental para uma dificuldade para decodificar o que queria me dizer. Tomei a consciência de que era preciso sobreviver pelo fato de fazer parte desse mundo imensurável de códigos e interpretações que é a vida e que nos leva à realizar e conquistar. Tinha a convicção que muito em breve precisaria de autonomia e que não contaria com ninguém para poder pagar meus próprios boletos.

          Mergulhei, em hiperfoco, na mente de toda e qualquer pessoa que atravessasse meu caminho, precisa saber, compreender e sentir o que se passava fora do meu universo. Porém, isso passou a me sobrecarregar em demais, sai de um extremo para o outro e fui perdendo minha identidade, o tempo foi nublando e não conseguia mais enxergar as nuvens que enalteciam a minha alma. Adotei a estratégia que me acompanha até hoje: passei a me envolver em todas as programações mentais diferentes, para obter previsibilidade, necessária à minha dinâmica funcional, porém, negando-me a me comprometer com qualquer uma delas. Isso reduziu muitos danos as minhas crises existenciais.

          Esse processo aconteceu como se eu tivesse passado a sentar em uma bela e confortável nuvem e passado a assistir a realidade da vida que acontecia ao meu redor. Trouxe meu violino para esse cenário, e construí uma vida sentindo, subjetivamente os acordes das canções e, simultaneamente, estudando os algoritmos que construíram a vida de seus compositores. Estabeleci um processo de descer dessa nuvem, participar do que era necessário de todas as demais vidas e retornava, comprometendo-me com o princípio do meu bem-estar, do meu equilíbrio e da construção da minha felicidade. Ao longo dessa caminhada, fui convidando apenas aqueles que comungavam de enredos semelhantes para fazerem morada nesse espaço sideral que consolidava a minha a história, a minha vida, o meu algoritmo.

          Interessante que minha vida pessoal e profissional foi apresentando vários outros como características semelhantes, porém, alguns deles que continuaram a negar as outras formas existentes, outros que foram destruindo o céu que habitam por considerar outros cenários melhores, ou por se acharem culpados de habitarem espaços diferentes. Minhas escolhas empíricas produziram, paradoxalmente, uma capacidade de inteligência existencial e intrapessoal com altíssima habilidade. Eu me construí um autista que passou a compreender as razões que levaram o senso comum passar a produzirem nuvens que não era, de algodão.

          Hoje tenho um verdadeiro castelo edificado por diferentes formas e curvas nas nuvens do meu paraíso. Ocasionalmente faço viagens rápidas a outras contextos, vidas e realidades e isso me faz me apaixonar cada vez mais pela obra que venho escrevendo, compondo ou desenhando na minha tela mental, na minha vida ou na minha alma. E tá tudo bem!

          A condição autista necessita resgatar o sentido efetivo de tudo que compõe a pessoa neurodivergente, fazer da sua história um clássico épico e saborear, verdadeiramente, aquilo que de fato se é, interrompendo o desejo fascinante e irrealista daquilo que se desejaria ser.

          Sim! As minhas nuvens são feitas de algodão. E as suas?

Uma resposta a “Sim! As Nuvens são Feitas de Algodão”

  1. Avatar de Flavio RB

    Senti uma grande conexão com suas palavras.

    Também fui muito impactado pela letra da mesma música, não só por esse verso em especial.

    Fiquei feliz em ver que não estou tão sozinho quanto, as vezes, me sinto.

    Obrigado por compartilhar seus pensamentos.

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