Existem questões de extrema relevância a serem analisadas em relação ao comportamento e a resposta afetiva das mulheres. Percebo que venho envelhecendo, não somente como indivíduo, mas, também, como profissional e a somatória de todos esses anos reiteram uma mesma percepção sobre a dinâmica funcional feminina.
Estamos em 2025, terceiro milênio, alcançando tecnologias e conhecimentos imensuráveis, mesmo assim, muitas repetições acerca da formação e da educação de meninas são mantidas. Há uma projeção, assim como um desejo desmedido, sobre a perpetuação de padrões e idealizações relacionadas a imagem dessa figura feminina. Vamos verificar algumas curiosidades que se perpetuam para não pontuarmos discrepâncias ou fundamentos lunáticos relacionados à realidade.
Há uma divinização relacionada a menina que chega nesse planeta para habitá-lo: roupas lindas, condutas irreparáveis, posturas elegantes, participação e interação social exímia, uma imagem irreparável de bom comportamento, candura e educação. Isso é expresso por uma educação que incentiva a relação com bonecas, atividades artísticas, um treinamento para muitas com uma qualidade total voltadas para práticas de cuidados pessoais, treinamentos relacionados aos cuidados com os brinquedos, com pequenas tarefas domésticas, o exercício da maternidade nas relações com os brinquedos, falo das ditas bonecas, as loucinhas e as cozinhas. Isso tudo é verificado em um conjunto significativo de lares que mantém essas tradições. Com o passar dos anos, aquele zelo para aprimorarem suas posturas, manterem posturas sociais sérias de meninas bem-comportadas, com conduta reta, pautada em valores e moral ilibada. Um espetáculo.
Uma indagação interessante é que esses mesmos princípios não são aplicados, da mesma forma ao grupo de meninos. Para esses, há uma liberdade maior com estímulos a algumas vivencias um tanto quanto diferentes. Isso não deixa de chamar à atenção.
Mas vamos resgatar algumas máximas históricas para entendermos as razões que justificam todos esses cuidados condicionadores à imagem da mulher. É ensinado dentro de nossa cultura que a mulher precisava e, agora, é altamente recomendável, transforme-se em um ser de força, guerreira, onde em seu coração sempre tenha lugar para mais um, que sempre esteja firme para enfrentar as vicissitudes relacionadas a formação familiar, que seja um exemplo inviolável para a formação de seus filhos e um pilar vital para a manutenção do seio familiar. Evolutivamente, agregou o papel de igualmente prover essa casa, sem poder fraquejar por isso, dando sustentação absoluta ao selo ISSO que um dia recebeu sem nenhum tipo de desejo e intenção para esse magnânimo papel que lhe foi incumbido. Preferencialmente, se recomendou dotes culinários, excelência para a limpeza doméstica e uma ação indomável relacionada aos prazeres construídos sobre os lençóis, mesmo que isso não lhe pareça ou faça sentir motivada ou atraída para os respectivos embates. Tudo isso, indispensavelmente, tomado por uma inclinação passiva e submissa, preferencialmente. Isso faz parte da realidade de todas as mulheres? Obviamente não! Porém, ainda, fato perceptível para uma grande maioria.
É claro que todo esse contexto não pertence ao desejo e a motivação de muitas mulheres. Porém, independentemente das razões que as levaram e levam a viverem tudo isso, falamos de um grupo gigantesco de seres maravilhosos que precisaram se adaptar a essa realidade que não lhes pertence, para sobreviverem. E como essa sobrevida se deu e se dá até hoje?
A mulher passou a interpretar diferentes personagens para se manterem vivas e com algum tipo de dignidade e motivo para darem sequência a essa imposição social. “Preciso e tenho” que ser a mãe estilo Maria, assim como é fundamental cuidar e zelar da minha casa com êxito como a outra Maria também o faz. A profissional de excelência, a amiga acolhedora, o ser social que busca atender a tudo e a todos e a amante insaciável. Sempre alegre, com sorriso no rosto e se colocando à disposição de toda e qualquer necessidade que o mundo a faça solicitar. E muitas dessas mulheres aparentam sucesso em suas interpretações, contudo, a maioria delas desabam em suas próprias estruturas, gritam caladas, choram compulsivamente, mas não permitem com que ninguém as percebam, afinal, precisam ser a fortaleza o tempo todo, para todos. Desregulam emocionalmente sem deixarem pistas, adoecem fisicamente amenizando o que podem casa sintoma que fere seus corpos e de maneira admirável vão mantendo suas diferentes marias, dando resultados fantásticos em suas empresas, sendo exemplos sociais e ardem para o desejo de tantos que não as enxergam.
Mulheres na condição autista foram educadas dentro desse mesmo princípio, vestiram todas essas máscaras e por cima dela alojaram um disfarce de ferro para já que todas essas situações se potencializam com força sobre suas vidas. Naturalmente, aprenderam a fazer o uso do masking social e com sua condição autista passaram a desenvolver o mascaramento sobre aquilo de mais íntimo possuem, sua essência estrutural. Um peso muito grande, um desgaste que só quem vive isso consegue definir. Um peso e uma dor invisíveis e que adoecem significativamente esses seres que merecem nossos acolhimento e respeito
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